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Número 784,

Economia

Desigualdade

No Brasil, avanços, apesar dos pesares

por Waldir Quadros — publicado 06/02/2014 05h56, última modificação 06/02/2014 06h00
As medidas tomadas para enfrentar a crise econômica de 2008 livraram a sociedade brasileira dos padecimentos habituais impostos às camadas mais frágeis
Reprodução Arte
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Fonte: IBGE

As medidas tomadas para enfrentar a crise econômica de 2008 livraram a sociedade brasileira dos padecimentos habituais impostos às camadas mais frágeis (1). O avanço social observado no período entre 2002 e 2008 foi preservado dos efeitos desatados na economia brasileira pela crise financeira global. Agora a divulgação dos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, relativa a 2012, enseja a constatação do prosseguimento da trajetória social favorável.

A tabela 1 apresenta a evolução da estrutura social dos ocupados nos seis anos de 2002 a 2008. A tabela 2 cobre o quadriênio de 2008 a 2012. Como se observa na última coluna das tabelas, apesar de a ocupação ter crescido a um ritmo mais fraco no período 2008-2012 (0,9% ao ano ante 2,7%), o desempenho desses últimos anos é melhor do que no período anterior.

Em primeiro lugar, a redução da camada de miseráveis, que havia sido tão expressiva entre 2002 e 2008, agora é ainda mais intensa. Em segundo, a massa trabalhadora (pobres), que no primeiro período havia se expandido por força da ascensão dos miseráveis, cai em termos relativos e absolutos no período de 2008 a 2012, a apontar a passagem de parcela significativa para a chamada baixa classe média. Esses comportamentos indicam a enorme mobilidade social que continuou a ocorrer nas camadas populares.

Sem dúvida os impulsos cumulativos das melhoras anteriores ajudam a explicar a dinâmica. Por fim, outra grande diferença do  período 2008 a 2012 é que a expansão relativa da baixa classe média (7,8% ao ano) é ultrapassada pela da classe média-média (8,2%) e praticamente igualada pela da alta classe média (7,4%), o que indica que o dinamismo ganhou novo ritmo também nas duas camadas mais bem situadas. Complementarmente, os dados abaixo revelam que após a superação da crise de 2008 o desemprego caiu em termos absolutos e relativos. Um aspecto muito importante é o comportamento da População Economicamente Ativa (PEA) no período recente, que tem indicado menor pressão no mercado de trabalho, nas faixas etárias mais afetadas pelas transformações do mercado de trabalho e por fatores demográficos.

Conclusão: a principal e importantíssima conquista no período recente foi a de, em um cenário de baixo crescimento, evitar o retrocesso e continuar a avançar na melhora da estrutura social de maneira ainda mais intensa, reflexo do comportamento das oportunidades ocupacionais, com redução do desemprego e aumento dos rendimentos médios. Parece plausível atribuir a continuidade das melhoras sociais, em grande medida, à recusa do governo federal em adotar o receituário ortodoxo na orientação da política econômica e social. Com essa postura corajosa protegeu a sociedade e preservou conquistas recentes.

Este é, contudo, o retrato da “infraestrutura das classes sociais”, que deve ser completado com as condições estruturais de vida. E essas são ainda marcadas profundamente pelas graves carências nas áreas de saúde, educação, segurança, habitação, transporte e mobilidade, saneamento, fundiária etc.  E não apenas no setor público, mas também nas instituições privadas.

(1). Cf. Quadros, W. – “Em 2009 a heterodoxia afastou a crise social”, texto para discussão, IE/Unicamp, n. 189, março de 2011, acessível em www.eco.unicamp.br.

(2). O comportamento da estratificação do conjunto da população no período recente acompanha de perto a evolução dos indivíduos ocupados.


*Quadros é professor doutor das Faculdades de Campinas (Facamp) e professor colaborador do Cesit/IE-Unicamp.

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