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Número 783,

Saúde

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As filas da radioterapia

por Riad Younes publicado 19/01/2014 09h14
A atual demora entre o diagnóstico e o início do tratamento pode reduzir as chances de cura para os pacientes com câncer
Ilustração: Claudia Kievel
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Tempo de espera para pacientes com câncer é de quatro meses

Quatro meses. Este é o tempo médio que um paciente com câncer no Brasil espera atualmente para iniciar seu tratamento com radioterapia. Faltam aparelhos e centros especializados. A terapia com radiação tem um papel fundamental no cuidado de doentes com câncer. Em muitos casos, alivia sintomas, melhora a dor, controla desmaios e convulsões. Em outros, pode representar o fim de um tumor maligno. Esperar quatro meses prolonga o sofrimento e afasta as possibilidades reais de cura, explica Robson Ferrigno, médico e coordenador dos serviços de radioterapia da Beneficência Portuguesa de São Paulo, e presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia.

CartaCapital: Qual a porcentagem de pacientes com câncer que necessita de algum tratamento radioterápico?
Robson Ferrigno: Atualmente, em torno de 60% dos casos necessitam de radioterapia em alguma fase do tratamento, para assegurar as chances de cura ou alívio de sintomas.

CC: No Brasil, qual é a estimativa de pacientes em busca da terapia por ano?
RF: Com a incidência de câncer estimada pelo Instituto Nacional do Câncer em 520 mil casos novos por ano, cerca de 312 mil necessitarão de radioterapia em 2014.

CC: Temos aparelhos suficientes?
RF: Não. Necessitamos de mais de 130 equipamentos para suprir a demanda reprimida. Hoje temos em torno de 320 equipamentos em funcionamento no País, dos quais 240 para atendimento do SUS.

CC: Qual a média de tempo para um paciente com câncer, que necessite de radioterapia, iniciar o tratamento no SUS?
RF: Segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), de 2011, o tempo médio de espera é de 113 dias, ou quatro meses.

CC: Essa demora pode prejudicar o paciente com câncer?
RF: O impacto é extremamente negativo, porque permite que a doença evolua e o paciente perca as chances de cura. Do ponto de vista de efetividade de tratamento, essa demora é inaceitável.

CC: Existe algum plano no Brasil para compensar essa defasagem?
RF: O governo federal iniciou um grande projeto de expansão de radioterapia, sem paralelo no mundo, por meio da aquisição de 80 novas “soluções”: ou seja, a construção de 48 novos serviços e a ampliação dos 32 já existentes. A licitação para aquisição desses equipamentos já ocorreu e há previsão de sua conclusão nos próximos três anos. As regiões mais deficientes foram
as  mais contempladas.

CC: Existem estados no Brasil com pior distribuição de equipamentos?
RF: Sim. Em estados como Amazonas, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Sergipe e Distrito Federal, a demanda reprimida, segundo relatório do TCU, é de 50%. Roraima e Amapá nem sequer possuem serviço de radioterapia.

CC: E no setor privado?
RF: Dependendo da região do País e do tipo do plano de saúde, há dificuldades de acesso. Em algumas situações, determinado plano de saúde dá acesso aos seus clientes apenas para serviços com tecnologia ultrapassada e de qualidade limitada.

CC: Atualmente, como é a tecnologia disponível no Brasil?
RF: Há no Brasil várias instituições com equipamentos de ponta, que oferecem a mesma tecnologia encontrada nos melhores centros de países desenvolvidos. Esta situação é mais frequente no serviço privado. Porém, algumas instituições públicas, como o Inca no Rio de Janeiro e o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), na capital, possuem essas mesmas tecnologias.

CC: Como o senhor vê o futuro da radioterapia no Brasil?
RF: Extremamente promissor. Tanto o governo como os serviços privados estão investindo em novos equipamentos. Além disso, o governo exige da empresa que ganhou a licitação que construa uma fábrica no Brasil. Esse cenário vai gerar empregos e maior acesso ao tratamento e, assim, deixar o País mais próximo de uma política de atenção oncológica mais adequada.

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