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Número 783,

Política

Portofino

Aqui Nietzsche ouviu Zaratustra

por Oliviero Pluviano — publicado 19/01/2014 09h13
Esta coluna é dedicada a um lugar do encanto, Portofino, para começar o ano da melhor maneira
Oliviero Pluviano
portofino

Portofino, na Itália

Quero começar o ano de 2014 com a imagem do lugar que me é mais caro. Todos nós temos um centro do mundo. Para Salvador Dalí era a estação ferroviária de Perpignan, na Catalunha francesa. Para mim é Portofino, ou melhor, o promontório de Portofino, u munte (o monte), como é chamado no dialeto da vizinha Gênova, principal porto italiano.

Juca Chaves, quando chegou à Itália exilado pela ditadura, divertiu o público da buona gente com uma música de forte acento brasileiro dedicada ao seu nariz (ouça no YouTube O Naso Mio), definido como o “grande promontório que lembra Portofino”. Pelos caminhos que vão de Camogli a Santa Margherita, passando por San Fruttuoso, Portofino e Paraggi, empoleirados sobre um enorme rochedo de puddinga (a estranha rocha vulcânica que lembra um pudim de areia com seixos redondos) de 600 metros de altura, Friedrich Nietzsche criou sua obra-prima Assim Falou Zaratustra. Ali a jovem Alma Mahler teria beijado pela primeira vez o pintor Gustav Klimt, antes de iniciar sua carreira de femme fatale dos gênios que a levou a amar o compositor Gustav Mahler, o arquiteto Walter Gropius, e o enfant terrible da arte austríaca Oskar Kokoschka. Eu também, no meu pequeno canto, beijei o primeiro amor na ponta de Portofino: lembrança indelével.

As Cinque Terre, pouco adiante na riviera lígure, estão na moda hoje como uma das joias do trekking internacional, mas em beleza (abundante em todo lugar, como, por exemplo, nos vinhedos agarrados ao penhasco sobre o mar de Vernazza), em minha opinião, o promontório de Portofino supera todas elas. No final da estrada pavimentada de San Rocco de Camogli, uma viela para pedestres desce pelos olivais até o rochedo de Punta Chiappa, com seu minúsculo Porto Pighêggiu (Porto Piolho), uma gruta encantada que protege três ou quatro gozzi (embarcações de madeira dos pescadores da Ligúria) do mar turbulento varrido pelo mistral. Dali só é possível chegar de barco, ou com duas horas de caminhada entre a vegetação mediterrânea, à Baía de San Fruttuoso, um dos lugares mais bonitos dos 8 mil quilômetros do litoral italiano (os mesmos do Brasil). A abadia de San Fruttuoso di Capodimonte remonta ao século X e é o lar dos ancestrais do almirante genovês de Carlos V, Andrea Doria. Na enseada verde-esmeralda jaz a estátua do Cristo dos Abismos, a quase 20 metros de profundidade, querida por todos os mergulhadores do planeta.

Quando ainda era jovem e sem dinheiro, ia comer no munte, na Osteria degli Olmi. Pedia pão com o fabuloso azeite local, enquanto aguardava um prato de minestrone à genovesa com pesto: matava minha fome com o pão embebido no extravirgem. Aquela trattoria não existe mais, mas há muitos restaurantes no promontório de Portofino que fazem a farinata de grão-de-bico ao alecrim, os pansoti ao molho de nozes, as troffie al pesto, os ravioli, as anchovas marinadas ou empanadas e fritas, a focaccia simples ou com queijo, todas especialidades da cozinha genovesa pobre (a única carne que existe é a de coelho), mas riquíssima de sabores e de antiga sabedoria. E assim se chega a Portofino por mar, ou por trilhas acidentadas, ou ainda de carro pela estrada maravilhosa que vem de Santa Margherita. Quem sabe você também possa, um dia, encontrar ou fortalecer o amor de sua vida nesse promontório único no mundo: como cantava na década de 1950 Johnny Dorelli, com o seu inesquecível Love in Portofino.