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Número 783,

Política

Basca

A aventura do velho terrorista

por Billy Culleton — publicado 14/02/2014 05h46
O autor do mais espetacular atentado do ETA, Ignacio Suescun Jauregui, fala pela primeira vez com um jornalista
Billy Culleton
Ignacio Suescun

"Hoje posso dizer que uma das maiores conquistas do ETA foi impedir a perpetuação da ditadura franquista."

O inusitado voo de um carro por ­cima de um prédio de seis andares, no centro de Madri, deu início à ruína da ­ditadura franquista na Espanha. Há exatos 40 anos, em 20 de dezembro de 1973, a explosão de 100 quilos de dinamite, colocados sob o asfalto de uma rua central da cidade, provocou a morte do então presidente ­espanhol Luis Carrero Blanco, candidato a suceder Francisco Franco. O carro do presidente passava pelo local e todos os passageiros voaram para o céu.

Considerado o mais impactante atentado cometido pelo grupo separatista ETA, o ato desestabilizou o regime ditatorial que dominava o país ibérico com mão de ferro havia quase quatro décadas e favoreceu o retorno à democracia poucos anos depois, impulsionado também pela morte do octogenário Franco em 1975.

Instantes depois da explosão, os responsáveis pelo atentado, o “etarra” Ignacio Suescun Jauregui e mais três companheiros, esconderam-se no porão de uma residência na periferia de Madri, de onde só sairiam 120 dias depois, para escapar do país e se exilar na França.

Durante os quatro meses de preparação do ataque, Jauregui foi encarregado pela cúpula do ETA de distribuir tarefas para 20 jovens que se envolveriam diretamente no atentado. Todos oriundos do País Basco.

Parte do grupo alugou uma casa na capital espanhola, de frente para a rua onde Carrero Blanco costumava passar diariamente. O objetivo era abrir um túnel que chegasse até o meio da via, onde seriam colocados os explosivos. Para não chamar a atenção da vizinhança, apresentavam-se como estudantes de arquitetura, sendo um deles “escultor”. Ao carregarem uma grande pedra para dentro da residência, cuidaram de espalhar a informação de que estava destinada a se transformar em obra de arte, moldada a golpes de martelo. Na verdade, o ruído da operação pretensamente michelangiolesca servia para encobrir o barulho da escavação.
Enquanto uns trabalhavam embaixo da terra, Jauregui foi designado para acompanhar todos os passos do presidente: confirmaram a sua impecável rotina diária. Saía de casa e participava de uma missa, às 9 horas, numa igreja próxima. Depois se dirigia ao seu gabinete, passando pela Rua Claudio Coello. O “etarra” chegou a frequentar a missa e comungar a uma mínima distância de Carrero Blanco.

O comando do ETA levantou a hipótese de assassiná-lo na igreja, mas logo percebeu-se que os seguranças impediriam a fuga dos atentadores.

“Era inacreditável que o presidente se expusesse dessa forma”, conta Jauregui, hoje com 64 anos. Ele vive em San Sebastián, no País Basco, desde que retornou ao país, em 1979, graças à anistia geral que beneficiou os dois lados da guerra, rebeldes e franquistas.

Ao falar pela primeira vez a um meio de comunicação, Jauregui considera que, atualmente, não há mais clima para as demandas de outrora. A dependência econômica com relação à Espanha seria o principal motivo para a desistência dos sonhos da criação de um País Basco. A sigla ETA significa “Pátria Basca e Liberdade”.

Enquanto fuma um cigarro atrás do outro, Jauregui se orgulha de ser um dos fundadores do grupo que defendia a independência da região e cuja cultura é absolutamente diferente do resto do país, a começar pelo idioma, o Euskera, um dos mais antigos da Europa. Atualmente ensinada nas escolas e universidades da região e falada rotineiramente por metade da população, a língua original tem vez em todos os lugares públicos, onde as informações são escritas em espanhol e basco.

Bombas e assassinatos de lideranças fizeram a história do grupo terrorista, que dizia representar a vontade de quase 3 milhões de habitantes do País Basco, cujo território equivale à metade do estado do Rio de Janeiro. Jauregui justifica a luta violenta do ETA pela opressão vivida por seu povo durante o franquismo, entre 1938 e 1975.  Franco, depois de vencer a guerra civil e tomar o poder, suspendeu qualquer manifestação ou ato que remetesse à cultura local. Entre as restrições, a proibição de falar o idioma basco, acompanhada por uma profunda discriminação social. Durante a guerra (1936-1939), o generalíssimo mandou lançar bombas incendiárias na região e uma das batalhas mais cruentas ficou imortalizada no quadro Guernica, de Pablo Picasso, a representar a brutalidade do ataque.

Décadas de constante repressão à cultura basca provocaram a revolta da população, que na sua maioria apoiou a formação do grupo extremista. A violência do ETA desencadeou, porém, forte sentimento de rejeição na Espanha. Em 43 anos, a ação da organização desdobrou-se em centenas de atentados, com um balanço de 850 mortos. Desacreditado, em outubro de 2011 o grupo anunciou o fim da luta armada.

“Hoje posso dizer que uma das maiores conquistas do ETA foi impedir a perpetuação da ditadura na Espanha. O assassinato de Carrero Blanco evitou centenas de outras mortes promovidas por Franco, o maior sanguinário da história da Espanha”, enfatiza Jauregui. Ele lembra que, com a retomada da democracia, a Constituição espanhola de 1978 concedeu certa autonomia à região basca, reconhecendo sua especificidade histórica, cultural e linguística.

Embora renegue parte do seu passado, ele mantém a ironia de um fora da lei. Ao comentar sobre a relação com suas duas ex-esposas, com quem teve três filhos, já adultos, foi categórico: “Velho terrorista não paga pensão!”