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Número 783,

Economia

Perspectivas

2014 deve ser um bom ano?

por Paul Krugman — publicado 21/01/2014 05h43
O fato de a economia melhorar não contradiz a análise keynesiana

Há um otimismo alarmante sobre as perspectivas econômicas dos Estados Unidos para 2014. Deixem-me tornar a situação ainda mais alarmante, dizendo que eu compartilho esse otimismo. Por quê? Por causa do efeito Três Patetas: se você esteve batendo a cabeça na parede sem um bom motivo, se sentirá muito melhor quando parar.

A economia americana em 2013 tentou começar uma forte recuperação, mas foi contida pela péssima política fiscal federal. A habitação se recuperava; se as políticas de austeridade estaduais e locais não recuaram, pelo menos não se intensificaram; e os gastos das famílias começavam a se reanimar, enquanto os níveis de dívida caíam. Mas os federais aumentavam o imposto sobre a folha de pagamento, com corte de gastos via sequestro e mais.

Incidentalmente, por esses fatores, eu não levo a sério as alegações dos monetaristas de que o fracasso do crescimento em 2013 de certa forma mostrou que a política fiscal não importa. A austeridade nos EUA, embora seja algo ruim, não foi nem de longe tão intensa quanto a que aconteceu no sul da Europa. Foi suficientemente contida para que pudesse ser, e foi, mais ou menos compensada por outros desenvolvimentos ao longo de um único ano.

A questão é que a bateção de cabeça está prestes a parar porque não vamos continuar a nos mover na direção errada. Enquanto isso, o mercado habitacional continua avançando e outras coisas são relativamente favoráveis.

Nada justifica os diversos anos de recuperação lenta que deveria ter sido vigorosa. Esse tipo de previsão é muito menos confiável do que minhas previsões de que a inflação e as taxas de juro continuariam baixas nos EUA, enquanto continuássemos presos em uma armadilha de liquidez, que se baseava em modelos de fundamentos. Ainda assim, o ano começa com boas profecias.

Um breve adendo: se 2014 for um ano de crescimento relativamente bom, muitos considerarão isso uma refutação do keynesianismo – “Ei, caras! Vocês não previram que a economia nunca se recuperaria sem estímulo fiscal?” – Não, não previmos.

Como escrevi em 2009: “A longo prazo, teremos uma recuperação econômica espontânea, mesmo que todas as atuais iniciativas políticas falhem. Por outro lado, a longo prazo...” O fato de que as coisas eventualmente melhorem não é uma refutação da análise keynesiana nem motivo para desculpar ou desprezar os vastos custos humanos e econômicos das más políticas até agora, assim como não justifica as políticas de austeridade na Grã-Bretanha.

Queria falar sobre o 50º aniversário da Guerra à Pobreza do presidente Lyndon Johnson. Por volta de 1980, segundo o Centro para Orçamento e Prioridades Políticas, houve consenso de que ela falhara. Mas, como o CBPP concluiu em um artigo deste mês, isso não se sustenta quando se fazem os cálculos direito: as medidas contra a pobreza com a ajuda do governo mostram um declínio significativo desde os anos 60. Há mais miséria nos EUA do que deveria, mas menos do que havia.
Mesmo assim, o progresso foi decepcionante. Nesta altura da discussão, é importante perceber que os conservadores estão emperrados em uma narrativa fóssil, uma história sobre pobreza persistente que pode ter tido algo a ver três décadas atrás, mas está toda errada hoje.

A narrativa nos anos 70 era que a guerra à pobreza tinha falhado por causa da desintegração social: as tentativas do governo de ajudar os pobres foram superadas pelo colapso da família, a ascensão do crime. A direita e o centro muitas vezes afirmaram que a ajuda promovia a desintegração social. A pobreza era, portanto, um problema de valores e coesão social, e não de dinheiro. Isso sempre foi muito menos verdadeiro do que a elite queria acreditar.

Hoje em dia o crime caiu bastante, assim como a gravidez adolescente e assim por diante. A sociedade não desmoronou, e sim a oportunidade econômica. Se o progresso contra a pobreza foi decepcionante no último meio século, o motivo não é o declínio da família, mas a ascensão da extrema desigualdade. Os EUA são muito mais ricos do que em 1964, mas pouco ou nada do aumento de riqueza foi transferido aos trabalhadores na metade inferior da distribuição de renda.

O problema é que a direita continua nos anos 1970. Sua noção de uma agenda antipobreza tem a ver com botar preguiçosos para trabalhar e deixar de viver à custa do Estado. O fato de que os empregos de baixo escalão, mesmo que uma pessoa consiga um, não pagam o suficiente para tirá-la da pobreza não foi assimilado. E  a ideia de ajudar os pobres continua sendo heresia.