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Número 782,

Política

Esquerda

Tradicionais e libertários

por Vladimir Safatle publicado 13/01/2014 06h19
“Muito das catástrofes da esquerda nas últimas décadas” deve ser atribuído “à perpetuação dessa divisão, que pode e deve ser superada”

Eduardo Viveiros de Castro é, atualmente, um dos intelectuais mais originais e rigorosos de nosso país. Responsável por concepções antropológicas inovadoras, como o “perspectivismo ameríndio”, o antropólogo carioca forneceu subsídios teóricos importantes para a problematização de um campo, nem sempre totalmente explícito, no interior do qual se desenvolve o comércio entre filosofia e antropologia.

Muitas vezes de maneira silenciosa, conceitos filosóficos ligados à noção de progresso, identidade, diferença e racionalidade fornecem o fundamento implícito para teorias que querem ser vistas como a mera descrição neutra de realidades sociais múltiplas. Explicitar e problematizar tal fundamento implícito é apenas uma das virtudes do pensamento de Viveiros de Castro. Com isso, ele não apenas forneceu uma visão mais rica e complexa daquilo que a antropologia tradicional chamara anteriormente de “animismo”, com suas pretensas ligações a um “pensamento pré-lógico” que coloca os sistemas indígenas de representação no interior de um bizarro cortejo de regressões no qual encontramos, um ao lado do outro, o selvagem, a criança e o psicótico. Ao insistir que o estudo antropológico das realidades indígenas poderia revelar o potencial perdido de uma racionalidade mimética ignorada por nossos sistemas de pensamento, ao mostrar como conceitos de natureza marcados por um perspectivismo interno era uma maneira forte de nos ensinar a sair das vias da racionalidade resvalada à estratégia de dominação instrumental, Viveiros de Castro não teria como deixar de se voltar contra certo positivismo latente que habita mais de uma versão das teorias marxistas da história.

Nesse sentido, a entrevista por ele fornecida à revista Piauí de janeiro é reveladora. Nela, Viveiros de Castro expõe claramente suas críticas àquilo que aparece no texto como “a esquerda tradicional”, com sua incapacidade de escapar de uma visão produtivista da relação entre homem e natureza, de sua fascinação não dita pela força disciplinar do Estado, pela organização política sob a forma do partido e pela sua crença na história como realização progressiva que marca com o selo do arcaísmo aquilo que sempre esteve fora do processo de modernização capitalista. Contra isso, apareceria uma “esquerda libertária”, à sua maneira tributária dos ideais antitotalitários de maio de 1968, ciosa da afirmação das diferenças e desconfiada dos arranjos institucionais que a esquerda tradicional procuraria preservar.

De fato, essa foi a divisão política que marcou a história política da esquerda nos últimos 40 anos. Talvez a boa questão seja se precisamos realmente de ainda conservá-la. Muito das catástrofes políticas da esquerda nas últimas décadas deve ser debitado na conta da perpetuação dessa divisão, que pode e deve ser superada. É verdade que tal divisão é ainda tão forte que nem sempre conseguimos nos fazer ouvir para além de certos estereótipos. Mas é de sua superação que depende o futuro de uma esquerda renovada e tal superação passa, certamente, pela revisão de certos pressupostos antropológicos que acabam por implicitamente guiar a ação política.

Por exemplo, podemos nos perguntar em quanto a tendência de alguns em estigmatizar ações como as impetradas pelos Black Blocs não seria dependente da crença em uma política organizada a partir de um “institucionalismo forte” que imediatamente compreende a recusa à institucionalidade como convite direto ao irracionalismo. Há de se perguntar o quanto isso não seria dependente de certa noção de progresso histórico como fortalecimento institucional.

No entanto, há de se lembrar dos problemas que o outro lado tem dificuldade em responder. Por exemplo, ao desconfiar do pretenso potencial disciplinar que estaria presente nas exigências de igualitarismo próprias à “esquerda tradicional” a dita “esquerda libertária” acabou, nas últimas décadas, por esquecer quão fundamental é organizar a luta política a partir do combate à desigualdade. Lembrem, o Partido Verde alemão, talvez um dos mais clássicos representantes dessa “esquerda libertária”, foi o mesmo que apoiou as leis de desregulamentação liberal do trabalho (Hartz IV) na Alemanha. A afirmação da diferença não pode nos cegar para a centralidade do combate sem trégua à desigualdade. Mas é simplesmente impossível lutar contra a desigualdade em larga escala sem um aparato institucional como o Estado, com sua força legal, tributária e universalizadora.