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Número 782,

Economia

Economia Positiva

Perguntas sobre a bitcoin

por Paul Krugman — publicado 15/01/2014 05h21, última modificação 15/01/2014 06h12
Há fortes dúvidas sobre se a moeda digital é uma reserva de valor confiável. Por Paul Krugman
Karen Bleier / AFP
Zynga

A companhia de jogos online Zynga fez subir a cotação da bitcoin depois de iniciar, neste mês de janeiro, uma operação para aceitar a moeda virtual em seus negócios

É sempre importante, e difícil, distinguir a economia positiva (como as coisas funcionam) da economia normativa (como as coisas deveriam ser). Mas não quero falar sobre macroeconomia, e sim sobre dinheiro – especificamente  sobre a bitcoin, a moeda digital.

Até agora, quase toda a discussão sobre a bitcoin se concentrou na economia positiva – ela realmente pode funcionar? Ainda estou em profunda dúvida. Para ter êxito, o dinheiro deve ser um meio de troca e uma reserva de valor razoavelmente estável. E continua impreciso por que a bitcoin deve ser uma reserva de valor estável.

O economista Brad DeLong explicou no início deste mês em um artigo para o Centro para Crescimento Equitativo de Washington: “O que sustenta o valor do ouro é que, se tudo mais der errado, você pode usá-lo para fazer coisas bonitas. O que sustenta o valor do dólar é uma combinação de: a) o fato de que você pode usá-lo para pagar seus impostos ao governo dos EUA; e b) que o Federal Reserve é um potencial ralo de dólares e prometeu comprá-los de volta e extingui-los se seu valor real começar a cair (muito) mais que 2% ao ano”.

Ele continuou: “Definir um teto para o valor do ouro é tecnologia de mineração, e a perspectiva de que se seu preço sair de controle, por muito tempo, pelo lado positivo uma grande quantidade dele será criada. Estabelecer um teto para o valor do dólar é o papel do Federal Reserve como verdadeira fonte do dólar, e seu compromisso é não permitir que haja deflação. Colocar um teto no valor da bitcoin é tecnologia de computador e a forma da função hash... até que se alcance o limite de 21 milhões de bitcoins. Colocar um piso no valor da bitcoin é... o quê, exatamente?”

Tenho um diálogo com tecnólogos inteligentes muito entusiasmados com a bitcoin, mas, quando tento fazê-los explicar por que ela é uma reserva de valor confiável, eles sempre vêm com explicações sobre como é um excelente meio de troca. Mesmo que acredite nisso, o que não faço totalmente, não resolve o problema. E não consegui fazer meus correspondentes reconhecerem que são perguntas diferentes.

Mas esta é uma discussão positiva. E a economia normativa? Você deveria ler Charlie Stross: “A bitcoin parece ter sido projetada como uma arma”, escreveu o autor de ficção científica em uma postagem no mês passado, “destinada a prejudicar os bancos centrais e emissores de dinheiro, tendo em mente uma agenda política libertária – prejudicar a capacidade dos Estados de coletar impostos e monitorar as transações financeiras dos cidadãos”.

Stross não gosta dessa agenda, nem eu, mas tento não permitir que isso incline a análise positiva da bitcoin a um lado ou a outro. Suspeita-se, porém, que muitos entusiastas da bitcoin estão entusiasmados porque, como escreveu Stross, “ela aperta os mesmos botões que seu fetiche do ouro”.

Então vamos discutir se a bitcoin é uma bolha e  uma coisa boa, em parte para garantir que não confundamos as questões.

Os republicanos estão sendo levados a se identificar de todas as maneiras com sua tribo, e seu sistema de crença tribal é dominado por fundamentalistas anticiência. Há tempo é impossível ser um bom republicano e acreditar na realidade da mudança climática; hoje é impossível ser um bom republicano e acreditar na evolução.

O mesmo acontece na economia. Em 2004, o Relatório Econômico Anual do presidente, publicado durante um governo republicano, podia adotar uma visão fortemente keynesiana, declarando as virtudes da “política monetária agressiva” para combater as recessões e defendendo a tese da política fiscal discricionária (naturalmente, a única forma de política fiscal discricionária considerada era o corte de impostos, mas a lógica era keynesiana e poderia ter sido usada igualmente bem para justificar programas de obras públicas).

Diante desse quadro intelectual, o ressurgimento de uma situação econômica do tipo 1930, com déficits prolongados na demanda agregada, baixa inflação e taxas de juro zero, deveria ter tornado muitos republicanos mais keynesianos que antes. Em vez disso, vimos os republicanos – os comuns, é claro, mas também economistas – declararem sua fidelidade a várias formas de economia pelo lado da oferta.

Isso deve se tratar de tribalismo. Todas as evidências, desde o fracasso da inflação e das taxas de juro a subirem, apesar dos enormes aumentos na base monetária e de grandes déficits, até a clara correlação entre austeridade e desaceleração, apontam em uma direção keynesiana; mas o ódio a Keynes (e a outros economistas cujos nomes começam com K) tornou-se uma marca tribal, uma parte do que se deve dizer para ser um bom republicano.