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Número 782,

Cultura

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Nordeste com retrogosto

por Nirlando Beirão publicado 12/01/2014 06h30, última modificação 12/01/2014 07h27
O Nordeste de Amores Roubados, minissérie da Globo, é o Nordeste pós-Lula, industrial e, eventualmente próspero, mas que continua ancorado no patriarcalismo
Estevam Avellar / Tv Globo
Amores Roubados

Amores Roubados: o futuro são eles

O Nordeste de Amores Roubados – a minissérie que a Globo exibiu esta semana, na sequência da nefanda Amor à Vida – é o Nordeste pós-Lula, afluente, industrial, eventualmente próspero, de casarões com adegas e carrões SUVs, mas que continua ancorado no patriarcalismo, empresários modernos com alma de coronéis obsoletos.

Um Nordeste cujo produtor de vinhos enverga uma barba digna de oligarca da República Velha, enquanto a filhota recém-chegada das Oropas confere ao Sertão – Sertão é, aliás, o hiperbólico e rebarbativo nome do município – o definitivo toque de modernidade, projetando-se de uma ponte do São Francisco, no deleite vertiginoso do bungee jump.

Mulheres que se jogam é a metáfora aparentemente fácil que contrapõe o predomínio machista às angústias de senhoras sexualmente desassistidas – e para cujo reconforto afetivo entra em cena o bonitão urbanizado e nem por isso menos cafajeste, caracterizado no ofício sabidamente insidioso de sommelier, especialista em gosto e retrogosto.

É interessante perceber, na Globo, a prospecção de novos formatos de dramaturgia, ainda que relegados ao horário das corujas. Vale também festejar a maturidade de atores crescidos no Projac (Cauã Reymond, Isis Valverde, Murilo Benício). Pena que ninguém cogitou, para o papel de coronel arrependido, do governador Eduardo Campos.

O mérito maior do autor George Moura e do diretor José Luiz Villarim) é revelar um Nordeste além da caricatura. A começar pelo sotaque mais sutil, mais nuançado, sem o exagero das produções à Jorge Amado. Fugir do sotaque forçado é fugir da prisão do estereótipo. Patrícia Pillar, que tem conhecimento de causa, deve ter ajudado no coaching.

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