Você está aqui: Página Inicial / Revista / Daniel Dantas e seu protetor / A guerra de mais de cem anos
Número 782,

Sociedade

Blogs do Além

A guerra de mais de cem anos

por Vitor Knijnik — publicado 14/01/2014 05h43
Há mais ou menos 600 anos, a França vivia um cenário de caos: cabeças cortadas por todos os lados, violência desmedida. Parecia o sistema penitenciário do Maranhão, escreve Joana D’Arc, direto do além
Do Blog da Joana D'Arc
Joana D'Arc

Chamada de “A Donzela de Orleans”, conduzi o exército francês contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos. Com 17 anos já tocava o terror nos campos de batalha europeus e fui queimada viva pela Inquisição. Não fui bruxa, mas também nunca fui santa. Quer dizer, sou santa, sim, desde 1920

Há mais ou menos 600 anos, quando me tornei uma pessoa famosa, a França vivia um cenário de caos: cabeças cortadas por todos os lados, um governo incapaz de controlar a situação, saques, violência desmedida. Parecia o sistema penitenciário do Maranhão.

Naquele momento, em um conflito que já durava quase um século, eu, com meus 16 anos, fui ao rei dizer que poderia dar a vitória à França. As pessoas se impressionavam com o que eu dizia porque ouvia vozes. Naquele tempo ninguém andava com esses fones imensos na cabeça. Era mesmo algo digno de nota. Você pode achar arrogância, mas, no mundo atual, meu gesto seria considerado demonstração de proatividade, tudo que um bom colaborador ou gestor precisa ter. E as vozes que ouvia certamente diriam “foco, força e fé”.

E foi pensando nisso que decidi expandir minha atuação profissional: além de líder militar e santa, agora faço gerenciamento de crises. Aproveitando o clima de “batalha medieval” no ar no Maranhão (já foi no Rio de Janeiro, já foi em São Paulo e eu, lerda, perdi as oportunidades), vou buscar profissionais de diversas áreas para transformar esse caos numa possibilidade de ganhos. Oferecerei estabilidade e, se não for suficiente, digo que foi uma ordem divina. Se o Bush convenceu tanta gente a ir pro Afeganistão e Iraque assim, eu tenho de conseguir também.

A ideia é que o Estado vire uma espécie de parque temático. Com o tema “carnificina”. Dentre os profissionais, procuro nas churrascarias gente que tope abandonar o espeto para formar uma tropa de lanceiros. Uns açougueiros também poderiam ser alocados na área. Já imaginou que coisa espetacular uma batalha nessas condições nos Lençóis Maranhenses? Foi arregimentando populares que levei a França à vitória. Mas como a batalha para pacificar o sistema penitenciário tem mais de cem anos no Brasil e ninguém parece ter o real desejo de enfrentá-la, a vitória, nesse caso, talvez seja transformar a barbárie num espetáculo rentável, aproveitando todo o seu potencial de demência e ferocidade.

Arquibancadas populares, camarotes institucionais, cadeiras cativas. A transmissão poderia ter uns truquezinhos de edição e uma narração engraçadinha, pra manter o astral lá em cima. No intervalo, show com artistas locais, personagens do bumba-meu-boi e tambor de crioula. E ainda dá pra oferecer imagens exclusivas num Pay Per View 24 horas. Serviço esse que a ONU e a Anistia Internacional com certeza vão assinar.

Por isso, gostaria de deixar claro que, caso a família Sarney precise dos meus serviços, estou à disposição pra ajudar. Já recebi uma mensagem divina e estou partindo em busca de uma audiência com Dom José ou com a Princesa Roseana. Como forma de recompensa, espero apenas ficar famosa o suficiente para virar personagem de minissérie da Globo e escolher a atriz que fará meu papel. Afinal, melhor do que a canonização foi ter sido interpretada no cinema por Ingrid Bergman e pela Milla Jovovich. Muita mulher arderia no inferno pra ter esse privilégio.

registrado em: ,