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Número 780,

Saúde

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O controverso cigarro eletrônico

por Riad Younes publicado 23/12/2013 01h02
A caneta que solta fumaça, com sua dose diária de nicotina para o fumante viciado, traz traços de substâncias de teor cancerígeno
Spencer Platt / Getty Images North America / AFP
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Catharine Candelario fuma cigarro eletrônico em Nova York. A cidade americana pode incluir o este tipo na lista de cigarros restritos

Está cada vez mais comum ver pessoas acenderem o que mais parece uma caneta e soltarem uma fumaça idêntica à emitida ao se fumar um cigarro. O assim chamado cigarro eletrônico imita a sensação de fumar, oferece ao fumante sua dose diária de nicotina e evita a inalação das 4,5 mil substâncias cancerígenas e nocivas à saúde. Parecia ser a solução ideal para quem tenta largar o tabagismo, sem sucesso.

A propaganda por trás desse equipamento inovador tornou-se cada vez mais intensiva. Os fumantes eletrônicos começaram a se aventurar, com fumaça e tudo, em ambientes até hoje proibidos por força da lei. Restaurantes, lojas, teatros, museus. Sem o mínimo pudor ou a menor sensação de culpa. Recentemente, no entanto, um estudo publicado na revista New England Journal of Medicine contestou a segurança tão alardeada dos cigarros eletrônicos.

Como ponto inicial, lembram os autores do estudo que as poucas pesquisas científicas realizadas com equipamentos de fumo eletrônico mostram que existem, mesmo em concentrações reduzidas, traços das temíveis substâncias cancerígenas. Qual seria o impacto dessas poucas substâncias na saúde dos fumantes eletrônicos, após anos de uso? Isso ninguém sabe ainda.

O segundo ponto salientado pelos cientistas é que o uso do cigarro eletrônico não constitui um programa eficaz na resolução do vício da nicotina. Pelo contrário, o indivíduo continua tão viciado quanto. Dessa forma, o cigarro eletrônico substitui o fumo clássico. Não o elimina. Pior, já surgem pesquisas confirmando que, na impossibilidade de se conseguir reposição da nicotina (refil) do cigarro eletrônico – fato comum no Brasil –, o fumante imediatamente retorna ao cigarro convencional. Ele não consegue viver sem sua prazerosa nicotina.

O terceiro e pior ponto seria a reversão de todos os sucessos já alcançados nas campanhas contra o tabagismo. Eliminar a possibilidade de acender o cigarro em local público, soltar a fumaça, contaminar os vizinhos fumantes passivos, e estigmatizar o fumante, foram os pilares dos programas que resultaram em clara redução do fumo.

Um estudo recente demonstrou claramente que os adolescentes muito jovens estão cada vez mais fumando cigarro eletrônico, e imediatamente o trocam por cigarro convencional. Seria um tiro que saiu pela culatra? Nada disso está definitivamente comprovado. Mas cautela e estudos bem controlados poderão, e deverão, em futuro próximo, esclarecer o papel real do cigarro eletrônico no controle da epidemia de tabagismo e na diminuição da mortalidade decorrente da inalação dessas fumaças. Enquanto isso não ocorrer, valeria a pena manter as canetas de nicotina eletrônica longe de crianças, jovens e ambientes públicos.

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