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Número 780,

Internacional

Reino Unido

O que sobrou do império?

por Gianni Carta publicado 21/12/2013 08h45, última modificação 21/12/2013 10h45
Uma sociedade de classes que, em economia, nega hipocritamente o legado de John Maynard Keynes. Por Gianni Carta
Flickr / Bisgovuk
Cameron

O primeiro-ministro britânico David Cameron

Encerrado o tempo de um império que dominou o mundo até o século XIX, os britânicos ainda são tidos como guardiões de uma eficaz política econômica, bem-sucedidos administradores e líderes governamentais. O sistema de classes na loura Albion permanece intacto. Boris Johnson, o prefeito de Londres, recomenda impávido: “A ganância e o espírito de inveja devem ser celebrados”. Colega do premier conservador David Cameron em Eton (escola para privilegiados onde estudaram os príncipes William e Harry), e com ambições de substituí-lo nas legislativas de 2015, Johnson acredita em uma sociedade de classes. Aqueles com QI mais elevado saem-se melhor em busca do lucro. Já quem dispõe de menor capacidade tem de aceitar seu papel medíocre. A desigualdade faz parte do jogo, para gerar o crescimento econômico, diz Johnson.

Cameron pertence à elite, embora às vezes use o termo “compaixão”. No entanto, não se manifestou com seu sotaque empastado de Eton e Oxford sobre os infelizes comentários de Johnson. Já os tories, assumidamente elitistas, certamente sentiram-se revigorados pelo discurso do prefeito. Por ora, Ed Miliband, o líder na oposição do Partido Trabalhista, está na dianteira das pesquisas eleitorais, ganharia se o pleito fosse hoje. Miliband haverá de focar sua campanha em uma sociedade igualitária, não de classes. Para que serve o desenvolvimento?

O Reino Unido vive um conto de fadas. Enquanto os parlamentares receberão um aumento de 11%, para 74 mil libras esterlinas anuais após 2015, a inflação e a queda do poder de compra dos salários reais deixaram o povo mais empobrecido. No início deste mês, o World Economic Forum (WEF) publicou uma pesquisa feita em 2013 em 148 países. Eis alguns dados: o Reino Unido tem rodovias piores que as do Chile e o metrô londrino é pior que o de Barbados. Igualdade de gênero? A Nicarágua está à frente do reinado.

A economia vai bem, mas depende do ponto de vista.  Há escassas semanas, o ministro da Fazenda, George Osborne, fez seu discurso anual no Parlamento. Os indicadores, como o real crescimento do PIB de 2,4% em 2014, são resultado de sua política de austeridade, disse ele. Will Hutton, do semanário The Observer, demonstra como Osborne “escondeu de forma extraordinária as intervenções keynesianas do Banco da Inglaterra e assim nunca admitiu a enormidade da mudança filosófica”. O Banco, juntamente com alterações de taxas de juro, usou, entre outros, “uma gama de ferramentas para garantir que o crédito fosse para onde era necessário e assim pôde evitar indesejados booms imobiliários”. Nesse contexto, bancos passaram a pedir depósitos mais elevados. Miliband, por sua vez, aprecia a queda do nível de desemprego de 7,6% para 7,4%. Mas, ao mesmo tempo, promete congelar preços de energia e aumentar os salários reais para combater “a crise do custo de vida”.

Por estarem desinformados sobre a influência de Keynes na política econômica do governo conservador-liberal comandado, desde 2011, por Cameron e pelo vice-premier Nick Clegg, o povo parece acreditar nessa ferrenha disciplina de austeridade. Por tabela, desconfiam dos líderes do Velho Continente, especialmente os mediterrâneos.  Cameron propõe um referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE após as eleições legislativas de 2015.

Antes disso, em um pleito em maio de 2014 o Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip) deverá se tornar a primeira legenda britânica nas eleições para o Parlamento Europeu. Atualmente com 13 cadeiras nesse Congresso, o Ukip se diferencia do Partido Nacional Britânico (BNP) porque não é de extrema-direita. Trata-se de uma legenda de direita populista que soube atrair vários integrantes tories. O motivo? Cameron não abraçou os valores de Margaret Thatcher: liberalismo econômico, conservadorismo político e tradicionalismo social. E como Maggie, o Ukip é mais agressivo contra a UE e os imigrantes.

Segundo Daniel Fiott, pesquisador do Institute for European Studies  da Vrije Universiteit Brussel e editor sênior do jornal acadêmico online European Geostrategy o objetivo de Cameron é deixar o Ukip se fortalecer no pleito parlamentar europeu em maio, e, ao mesmo tempo, sossegar os mais antieuropeus no Partido Conservador. Cameron sabe que os britânicos votam de forma diferente em pleitos europeus do que em britânicos. E como se posicionará nas legislativas o liberal-democrata Clegg, que se diz pró-europeu? Responde Fiott: “Será interessante ver se os liberal-democratas vão realmente se posicionar a favor da UE no seu manifesto de 2015”. O acadêmico “suspeita que em uma tentativa de escorar votos eles poderão tirar o foco da UE como uma questão política e se concentrar em políticas econômicas que têm desenvolvido no governo”.

Uma infatigável imprensa marrom eurofóbica bastante apreciada pelas massas produz inúmeras  reportagens contra os imigrantes. Mas não há provas de que estes contribuem para a diminuição de salários. Desigualdade? É provocada em grande parte pela tecnologia. E o mundo atravessa uma crise econômica. Uma enquete realizada pela Opinium revela que 55% dos alemães e, entre outros povos, 62% dos poloneses, e apenas 26% dos britânicos consideraram a UE uma “coisa boa”.

A partir de janeiro, búlgaros e romenos poderão entrar e sair do reinado. Cameron diz que a Grã-Bretanha não vai aceitar um novo fluxo, como aquele dos poloneses que em 2004 integraram a UE e hoje colocam em solo britânico o segundo maior número de filhos após os nativos.  No entanto, poloneses e imigrantes de outros países da UE se adaptam ao mercado de trabalho. Entre 1997 e 2001, imigrantes pagaram 14 bilhões de euros ao Fisco. Segundo The Economist, sem os poloneses o déficit britânico seria ainda mais elevado.

De todo modo, o maior problema existencial da Grã-Bretanha seria se os escoceses do premier separatista Alex Salmond optassem pela secessão em um referendo programado para setembro de 2014. A Grã-Bretanha deixaria de existir. Ser britânico é uma construção política. Se todo inglês se diz britânico, o que quer dizer ser inglês? Eis a questão.

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