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Número 779,

Economia

Indústria

Sem ideias novas

por Samantha Maia — publicado 24/12/2013 08h17
Pela primeira vez no século, as empresas brasileiras reduzem o ritmo dos investimentos em inovação
Voishmel / AFP
Indústria

Rescaldo. Segundo especialistas, a queda registrada pelo IBGE foi uma resposta à crise internacional

Entre 2009 e 2011, no período em que a conjuntura econômica mundial esteve mais nebulosa, as empresas apostaram em produtos e processos inovadores para garantir seu lugar ao sol, certo? Errado. Diante da demanda em queda, o comportamento detectado pela Pesquisa de Inovação Tecnológica, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada recentemente, contrariou a expectativa de quem confiava no caráter anticíclico dessa modalidade de investimento. Segundo o levantamento, 35,6% das 129 mil indústrias consultadas inovaram no País no triênio, uma queda considerável em relação aos 38,1% registrados no período anterior (entre 2008 e 2010). Foi a primeira retração do índice medido pelo IBGE desde o início da pesquisa, em 2000, quando a taxa de inovação estava em 31,5%.

O nível atual coloca o Brasil no patamar de países do Mediterrâneo, acima da média dos latino-americanos e bem abaixo dos desenvolvidos, onde o índice chega a 60%. Quando esmiuçado, deixa entrever as razões dos empresários que se motivaram a investir, ocupados principalmente em não perder mercado para a concorrência. “O esforço das empresas ficou mais concentrado na inovação de processos produtivos, para baixar os custos, e menos em lançamentos de produtos, que envolvem maior risco”, diz Alessandro Pinheiro, pesquisador do IBGE responsável pela pesquisa.

Para David Kupfer, professor da UFRJ e assessor da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, apesar do senso comum, o desempenho verificado era esperado pelos especialistas. “Normalmente, é a empresa competitiva que inova mais, e não a que precisa se recuperar.” No caso brasileiro é preciso, porém, mais do que competitividade para impulsionar os investimentos em atividades inovadoras, considera.

Se as inovações não deslancham, não é por falta de apetite do empresariado. A injeção de novos recursos para inovação por meio do programa federal Inova Empresa, lançado em março deste ano, expôs a existência de uma forte demanda reprimida. A oferta de 32 bilhões de reais a custos subsidiados atraiu o interesse de empresas cujos projetos somam 65 bilhões de reais de investimentos. Apenas no âmbito do Inova  Saúde, para produtos farmacêuticos e equipamentos médicos, foram 6 bilhões de reais em propostas a serem analisadas, três vezes mais que os 2 bilhões ofertados.

O segmento farmacêutico é um retrato fiel dos efeitos da falta de investimentos. Os gastos em inovação corresponderam, em 2011, a 4,8% da receita do setor. O parque industrial brasileiro tem suas atividades concentradas em produção de medicamentos e comercialização, mas é marcado pelo baixo desenvolvimento de princípios ativos e suas patentes, responsáveis por até 80% do custo dos produtos. Como resultado, cresce a dependência do País dos importados. Em 2012, o déficit na balança comercial farmacêutica foi de 7 bilhões de dólares, com tendência de alta em 2013. Na primeira semana de dezembro, as importações tiveram alta de 40% em relação ao mesmo período do ano passado.

Para viabilizar os investimentos dos laboratórios e estimular a busca de recursos, o governo federal comprometeu-se em adquirir 8 bilhões de reais ao ano em produtos das empresas inscritas no Inova Saúde. A seleção preliminar dos planos de 21 companhias, dentre elas Aché, Eurofarma e Hypermarcas, soma 3,6 bilhões de reais. O resultado deve ser anunciado na sexta-feira 20, mas nem todos levarão, pois os recursos disponíveis somam 1,5 bilhão. “A intenção foi casar o foco em medicamentos de alta complexidade com o poder de compra do Estado”, diz Glauco Arbix, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), uma das responsáveis pelo programa em parceria com os ministérios do Desenvolvimento e da Saúde, BNDES e CNPQ, do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Semelhante ao modelo do Inova Saúde, está em andamento a análise de iniciativas em aeronáutica, agropecuária, energias alternativas, petróleo, gás natural, biomassa e ações de sustentabilidade. A escolha dos projetos será definida até o começo de 2014. O objetivo anunciado é desenvolver novas tecnologias no País. “A expectativa é dobrar o investimento em P&D industrial, de 20 bilhões ao ano para 40 bilhões a partir de 2015”, explica Arbix.

Nesse quesito, as empresas inovadoras deixam a desejar, pois a maior parte do investimento tem se concentrado na compra de máquinas e equipamentos, o que traz impacto sobre a produtividade, mas não capacita as companhias para a criação de novas soluções. Dos 64 bilhões investidos em 2011 em inovação, apenas 31% foram em P&D. A aquisição de bens de capital é a ação mais relevante para 75% das indústrias, e o financiamento para a compra desses produtos foi o principal instrumento utilizado.
Apesar dos números mais recentes, há sinais de que as companhias começam a apostar na inovação como atividade estratégica. Segundo a própria pesquisa do IBGE, 1,6 mil companhias passaram a investir em P&D, além das 4,3 mil identificadas do levantamento anterior, o que poderá trazer impactos positivos mais adiante. Tais inversões não tornam as companhias inovadoras, segundo o critério do estudo, pois não se materializaram na mudança dos processos produtivos ou no lançamento de produtos, mas as capacitam para empreender futuras inovações.

“A participação dos gastos em P&D no total dos investimentos em inovação cresceu de 24,5% para 29%, o que é importante por ser uma atividade mais nobre”, diz Pinheiro, do IBGE. O porcentual de indústrias com investimento na área passou de 4,2% em 2008 para 5% em 2011, mas não superou o resultado de 2005 (5,5%), e está longe de alcançar a taxa de 10,3% registrados na primeira pesquisa de 2000.

Mesmo com a defasagem, há um esforço evidente das indústrias: os valores investidos em inovação passaram de 0,62% da receita em 2008 para 0,71% em 2011. “Surpreendeu haver um aumento desse tamanho no espaço de três anos, o que pode levar à conclusão de que há uma mudança de percepção estratégica em relação à inovação”, avalia Kupfer. Segundo ele, aliado ao incremento do apoio público, o cenário torna-se mais favorável para a continuidade do aumento de recursos alocados.

Outros dois pontos positivos destacados por Pinheiro são o crescimento do número de empresas com algum tipo de cooperação com instituições de ensino e grupos de pesquisa, de 10% em 2008 para 16% em 2011. O pesquisador destaca ainda a maior difusão do uso da nanotecnologia e da biotecnologia. Segundo a pesquisa, 1,8 mil empresas declararam usar a biotecnologia (56% mais que em 2008). “É importante porque são processos com apelo no mercado internacional e que aumentam a competitividade.”

O fato de as companhias citarem a falta de mão de obra como o segundo maior gargalo para as práticas inovadoras, atrás apenas do custo financeiro dos investimentos, pode ser sinal de amadurecimento do mercado. Em 2005, o problema foi o sexto mais relevante e, em 2008, o terceiro. “Isso pode indicar mais procura por profissionais, ou seja, as empresas estão empreendendo”, avalia Pinheiro.
Segundo Kupfer, configura-se a tendência em que as empresas de setores tradicionalmente mais fortes em inovação no mundo, entre elas bens de capital, cadeia de petróleo e gás, indústria automobilística, de implementos agrícolas e TI, começarão a investir com mais força no País, ainda que os resultados sejam lentos.