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Número 779,

Política

Análise / Luiz Gonzaga Belluzzo

Os mortos-vivos da Economia

por Luiz Gonzaga Belluzzo publicado 16/12/2013 05h54, última modificação 16/12/2013 06h14
“Queremos a inclusão de teorias críticas e de reflexão”, exigem os estudantes ingleses

Bem informado, o leitor de CartaCapital sabe que se multiplicam mundo afora os movimentos de rejeição dos estudantes de Economia aos métodos e prosopopeias que infestaram e infestam a Ciência Triste, antes e depois da crise. A mais recente arregimentação de rebelados sacudiu a Universidade de Manchester sob o patrocínio da Post Crash Economics Society.

Em seu manifesto inaugural, os alunos da Manchester sentam a pua nos professores. Argumentam que não foram advertidos da iminência da crise, muito menos informados dos conceitos ou hipóteses teóricas que permitiriam compreender o que aconteceu no mundo em que tentam sobreviver os homens de carne e osso.

“Queremos a inclusão de teorias críticas e de reflexão, porquanto neste momento os estudantes de Economia são obrigados a aceitar um imenso repertório de verdades autoevidentes, em vez de encorajados a verdadeiramente compreender a disciplina.”

John Quiggin é autor do livro Zombie Economics: How dead ideas still walk among us.  Os economistas deveriam manter a obra nas estantes de suas bibliotecas. Quando estivessem prestes a sofrer um ataque de necrofilia, correriam imediatamente para se socorrer de ideias vivas. Ideias vivas, diz Quiggin, não são necessariamente ideias novas. Nos últimos tempos, as ideias apresentadas como novas são zumbis, mortos-vivos que deabulam nas universidades do mundo tangidos por doses cavalares dos poderes da finança a sustentar sua sobrevivência cadavérica.

Quiggin apoia os dissidentes. Diz ele: “A grande mudança deve ensinar menos e questionar mais, particularmente no que diz respeito à macroeconomia. Eu começaria com a história Economia Relevante e a História do Pensamento Econômico: os clássicos, depois Keynes (talvez Fisher), a síntese neoclássica do pós-Guerra e a curva de Phillips, a crítica de Friedman e Lucas e a Teoria dos Ciclos Reais. Depois do percurso histórico, eu saltaria para a crise atual para demonstrar que o desenvolvimento da teoria macroeconômica não pode ser considerado um progresso”.

Peço mais uma vez licença ao leitor de CartaCapital para repisar argumentos que esgrimi no prefácio do livro Conversa com Economistas. Dizia então que a economia, ao longo do século XIX, tomou como paradigma científico a imponente construção da mecânica clássica e como paradigma moral o utilitarismo da filosofia radical do fim do século XVIII. O homo oeconomicus, dotado de racionalidade, com informação perfeita ou com mercados completos para todas as datas e contingências, busca maximizar sua utilidade ou os seus ganhos, diante das restrições de recursos impostas pela natureza ou pelo estado da técnica.

A suposição fundamental das teorias novo-clássicas, com expectativas racionais, afirma que a estrutura do sistema econômico no futuro já está determinada. Isso porque a função de probabilidades que governou a economia no passado é a mesma do presente e do futuro. Não somente as ações humanas estão amparadas em estruturas naturais capazes de garantir a estabilidade do sistema movido pelo egoísmo dos sujeitos, como o futuro pode ser antecipado probabilisticamente.

No livro Epistemics and Economics, o economista George Shackle cuida de encarar a questão da racionalidade: “O tempo e a lógica são estranhos um ao outro. O primeiro implica a ignorância, o segundo demanda um sistema de axiomas, envolvendo tudo o que é relevante. Mas, infelizmente, o vazio do futuro compromete a possibilidade da lógica”.

Shackle afirma que a economia é um saber obrigado a formular hipóteses, levando em conta o tempo histórico, dimensão da ação humana. Deve entregar-se ao estudo do comportamento dos agentes privados em busca da riqueza, no marco de instituições sociais e políticas produzidas pelas ações e decisões do passado.

A especificidade da ação econômica, em uma sociedade em que as decisões são “descentralizadas”, é definida pelo caráter crucial das antecipações do grupo social controlador da riqueza e que deve decidir o seu uso a partir do critério da vantagem privada. Por um lado, os planos individuais de utilização da riqueza não podem ser pré-reconciliados; de outra parte, os resultados não intencionais do turbilhão de ações egoístas modificam irremediavelmente as circunstâncias em que as decisões foram concebidas. Há, portanto, uma dupla incerteza.

Shackle, ao combinar criativamente Hayek e Keynes, confere às decisões empresariais de investimento um caráter crucial, na medida que “criam o futuro”. É um ato praticado em condições de incerteza radical que muda, a cada momento, a configuração da economia.

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