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Número 779,

Saúde

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Dieta, bactérias e genes

por Drauzio Varella publicado 14/12/2013 09h47
A mais populosa, diversificada e complexa comunidade de microrganismos é a que vive no intestino. Isso afeta o aproveitamento energético de todo o corpo
Escher / Formigas de Moebius
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"A tarefa do poeta é nos dar a sensação de união íntima entre a palavra e o espírito" Paul Valéry

Genes e fatores ambientais interagem de modo a modular e a modificar a biologia de todos os seres vivos. O contato com o meio e as experiências do dia a dia interferem diretamente na expressão dos genes que herdamos, da mesma forma que fatores genéticos influenciam nossas respostas aos desafios impostos pela adaptação ao ambiente.

As substâncias presentes nos alimentos guardam relação direta com a constituição do nosso organismo e dos microrganismos que vivem em simbiose conosco. Esse microbiota que coloniza a pele, cavidade oral, vagina e o trato gastrointestinal está longe de ser desprezível: contém pelo menos 100 vezes mais genes do que nosso próprio genoma.

Estudos recentes mostram que essa população microscópica altera as funções de nossos genes, interferindo na saúde e no aparecimento de doenças que vão da artrite reumatoide ao diabetes e às doenças inflamatórias intestinais.

A mais populosa, diversificada e complexa comunidade de microrganismos instalada no corpo humano é a que vive no intestino. A ação desses comensais afeta o aproveitamento da energia extraída dos nutrientes e modifica um grande número de moléculas produzidas tanto pelo organismo quanto pelos próprios germes, num processo contínuo que modula o metabolismo do hospedeiro.

Mudanças nas características dessas comunidades intestinais podem alterar mecanismos bioquímicos relacionados com o aproveitamento energético, que aumentam ou diminuem o risco de obesidade, síndrome metabólica e diabetes, por exemplo.

A natureza dessas interações hospedeiro-microbiota intestinal guarda relação evidente com os alimentos ingeridos. Não é possível considerar os fatores genéticos envolvidos no metabolismo humano sem levar em conta o papel das substâncias ingeridas e sua influência no metabolismo dos microrganismos intestinais. Dieta, genes do hospedeiro e do microbiota estão inseparavelmente interligados.

Por exemplo, pacientes hospitalizados que recebem antibióticos por longos períodos correm risco de diarreia por Clostridium difficile, bactéria pouco sensível à antibioticoterapia. Diversos estudos demonstraram que transplantar para o intestino doente uma solução contendo fezes de pessoas normais repõe as bactérias mortas, acelera a eliminação do Clostridium e a cura da diarreia.

Pesquisas com ratos e seres humanos encontraram diferenças claras na composição do microbiota intestinal entre indivíduos magros e obesos. O tratamento da obesidade com probióticos que modificam a composição da flora bacteriana é área de grande interesse clínico.

Fatores dietéticos que alteram a diversidade das bactérias intestinais estão envolvidos no mecanismo da aterosclerose, processo pelo menos parcialmente associado à inflamação crônica.

Os estudos das interações do microbioma com o metabolismo humano estão criando novos modelos para entender a fisiopatologia. As doenças humanas nunca mais serão vistas da mesma maneira.

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