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Número 778,

Cultura

Cinema

A vênus tocada

por Orlando Margarido — publicado 07/12/2013 08h44, última modificação 09/12/2013 06h52
Em Azul É a Cor Mais Quente, Kechiche se diz numa armadilha ante uma França condenatória ao retratar o amor homossexual entre duas jovens
Divulgação
Azul é a cor mais quente

Adèle e Léa, amor e dor inerentes às paixões

Azul É a Cor Mais Quente
Abdellatif Kechiche

Abdellatif Kechiche assume que tem falado movido pela raiva. Disso se arrepende, mas não de ter realizado um dos filmes mais controversos da safra recente ao retratar o amor homossexual entre duas jovens. “Este debate está em torno do filme, não nele”, ressalva em conversa com CartaCapital. Polêmico e premiado, Azul É a Cor Mais Quente estreia na sexta 6 com o título da história em quadrinhos francesa que o inspira. No mais recente Festival de Cannes, onde ganhou a Palma de Ouro, era La Vie d’Adèle (A Vida de Adèle). É o nome da protagonista e de sua intérprete, Adèle Exarchopoulos. O diretor achou por bem manter a coincidência e dar mais solidez à personagem.

Não parece ter sido escolha auspiciosa. Desde Cannes, Kechiche é contestado quanto às cenas de sexo, anódinas para ele, entre as jovens atrizes também premiadas no festival. A parceira de Adèle no drama, Léa Seydoux, no papel de Emma, acusou o cineasta de envolvê-las em um processo sádico para chegar a um resultado sem limites. Técnicos e seu sindicato também reclamaram das condições forçadas de trabalho. Às vésperas da estreia na França, o diretor queixou-se do olhar influenciado que a plateia teria e preferiu não fazer lançamento. “Disse-me arrependido de chegar até ali, mas foi outro de meus momentos de tensão. Tem havido muitos devido a uma atriz capciosa e tola, que não mediu o estrago de suas palavras. O filme ficou sujo por causa dela e isso me deixou perturbado.”

Léa, herdeira dos poderosos grupos cinematográficos Pathé e Gaumont, não acompanha as turnês, mas sua colega sim. Adèle veio a São Paulo com Kechiche e adota maior discrição. “Pena a discussão ter ficado circunscrita a polêmicas. É um filme sobre amor, não homossexualidade, e se há dor, é comum a paixões.” Ela discorda da colega? “Foi difícil, mas parece que mais para ela. Não sabíamos até que ponto Kechiche nos exigiria, e penso que nem ele.” O tunisiano ecoa as opiniões de sua atriz. “Sinto que caí numa armadilha preparada por mim mesmo.” Quando lembrado de que havia um voyeurismo de outro apelo, também perturbador, no seu filme anterior Vênus Negra, considera a aproximação bela e analisa: “Acho que ainda não se pode mexer em certos preceitos na França”.