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Número 777,

Saúde

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A ilusão das vitaminas

por Riad Younes publicado 04/12/2013 06h22
Bilhões são jogados no lixo por consumidores convencidos de que vitaminas previnem câncer, infarto e derrame

Dez anos atrás, nesta coluna de CartaCapital, divulgamos os resultados da avaliação realizada por um grupo de cientistas americanos, a força-tarefa dos serviços preventivos dos Estados Unidos, financiada e organizada por órgãos dos institutos de saúde daquele país.

Nessa pesquisa, dois dados ficaram claros. O primeiro refere-se à quantidade imensa de multivitaminas compradas e consumidas pelos americanos, ultrapassando a cifra de 11 bilhões de dólares por ano, e a ausência de qualquer evidência clara de que essas vitaminas reduziriam as chances de um indivíduo morrer de câncer ou de doenças cardiovasculares, como infarto e derrame.

Recentemente, e uma década depois daquele relato, um estudo extenso, liderado pelo doutor Stephen Fortmann, da Universidade de Portland, Oregon, e do  Centro Kaiser Permanente para Pesquisa Médica, foi publicado na revista Annals of Internal Medicine. Os cientistas avaliaram estudos com mais de 324 mil voluntários para tentar identificar o real impacto sobre a mortalidade por câncer ou por infarto, da ingestão rotineira de vitaminas ou os micronutrientes (como cálcio e selênio), largamente difundida na população. Ao completarem o estudo, os resultados mostraram que, apesar das pesquisas de 2003, o consumo dessas vitaminas permaneceu em níveis recordes.

Os americanos ainda acreditavam, ou foram convencidos, de que tomar essas vitaminas ou micronutrientes vai prevenir efetivamente o aparecimento de um tumor maligno ou a obstrução de suas artérias. Por outro lado, os pesquisadores conseguiram identificar o potencial benefício de vitaminas usadas individualmente, ou associadas. Concluíram que, dez anos depois do primeiro estudo, ficaram mais claras algumas afirmações.

Primeiro, não se deve mais recomendar a realização de pesquisas nem o uso rotineiro das vitaminas A, C e E, assim como do betacaroteno, em pessoas normais sem deficiência comprovada dessas vitaminas. Quanto ao selênio, os estudos futuros deverão tentar separar os indivíduos com níveis baixos de selênio no sangue antes de incluí-los nas pesquisas, para conseguirmos dados mais sólidos para o seu uso.

Mais trabalhos científicos deverão ser realizados sobre os benefícios da suplementação de vitamina D, isoladamente da ingestão de cálcio, para eventualmente confirmar qualquer benefício dessa vitamina em reduzir as chances de morrer de câncer. Por fim, doutor Fortmann deixou muito clara a consistente falta de evidência científica que possa basear o uso diário de suplementação de vitaminas e de micronutrientes em pessoas saudáveis e sem exames que detectem sua falta no sangue, como prevenção de morte por câncer ou por doenças cardiovasculares, ou como promoção de melhor saúde.

Apesar da propaganda intensiva nos meios de comunicação leiga, os especialistas médicos ainda não conseguem identificar para que e para quem esses potes e comprimidos, comprados aos milhões por americanos – e brasileiros também – poderiam ser conscientemente recomendados.   Esses bilhões de dólares jogados fora poderiam ajudar a saúde da população de forma mais impactante. Por exemplo, apoiando pesquisas científicas sérias, na tentativa de descobrir novos métodos de prevenir ou tratar o câncer. Melhor que jogá-los, literalmente, no esgoto.

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