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Número 776,

Política

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Michael Jackson para crianças

por Vitor Knijnik — publicado 27/11/2013 17h49
Estou a falar do velho embate: as ideias de um artista, seu comportamento e sua biografia devem interferir na apreciação de sua obra? No Blog do Richard Wagner
Do Blog do Richard Wagner
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Maestro, compositor, diretor de teatro e ensaísta alemão, conhecido também por ser um fervoroso antissemita. Não é que eu tivesse preconceito contra judeus, eu tinha era nojo. É diferente

A discussão é antiga. E meu nome sempre serve para sustentar os argumentos favoráveis e contrários. Estou a falar do velho embate: as ideias de um artista, seu comportamento e sua biografia devem interferir na apreciação de sua obra?

Esse debate está permanentemente em pauta. Para uns, pouco importa o que artista faz fora dos limites de sua obra, a única coisa a ser julgada é a sua produção. Para outros, artista e obra são coisas indissociáveis, a vida é apenas mais um dos suportes de sua expressão. Nunca falta uma faceta obscura de um artista pra ser revelada. Sem contar aqueles que, vira e mexe, decepcionam o seu público com declarações controversas ou comportamento diverso daquilo que a sua imagem pública fazia intuir. Sempre haverá um cigarrinho suspeito, uma traição publicada ou um post cretino nas redes sociais colocando em xeque seus valores.

A minha opinião você já sabe. Não tem nada a ver julgar uma obra examinando a vida do artista. Claro que certos dados bibliográficos nos despertam simpatia e nos aproximam de alguns. Eu, por exemplo, nunca havia lido nada do Günter Grass, até ele se envolver numa polêmica sobre o Estado de Israel. Aliás, apesar de notório antissemita, não me importo que os judeus consumam a minha música. Sou como o Michael Jackson vendendo discos para adultos.

Em meio ao debate, penso na tristeza que deve ser você se entender como um cara de esquerda e não poder cantar no chuveiro Me Chama do Lobão ou Inútil do Ultraje a Rigor. Já pensou ser transfóbico e não poder se deleitar com as tirinhas do Laerte? Ou pelo menos com aquelas que são possíveis de entender. Ser homofóbico implicaria ignorar metade da MPB, por exemplo. E ser um bom pai que não pode apreciar um Picasso ou um liberal que não possa ler um Graciliano Ramos? Imagine um mundo em que, pra gostar do Keith Richards ou do Iggy Pop, fosse necessário ser abstêmio? Pior de tudo mesmo é ser católico e não poder requebrar ao som do Funk Ostentação.

Na verdade, é uma grande bobagem querer que seu ídolo pense como você ou que se comporte conforme o seu padrão moral. Por esse critério, você limita demais o seu consumo cultural. O mundo já não é repleto de grandes talentos, se você ainda examinar com essa lupa a vida dos artistas para selecionar seus gostos, vai sobrar pouca coisa pra colocar nos palcos, players, estantes e telas. Na arte, assim como no futebol, vale a máxima de que o craque existe pra fazer gol de placa, não pra casar com a sua filha.