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Número 776,

Educação

Ciência

A arte de turvar ideias

por Thomaz Wood Jr. publicado 28/11/2013 05h25
Pesquisador inglês, incomodado com o jargão científico, investiga as razões do hermetismo acadêmico nas Ciências Sociais

A administração de Empresas é uma profissão. É também uma ciência social aplicada, na qual pesquisadores se debruçam sobre os mais variados fenômenos. Finanças, marketing, recursos humanos, gestão de operações: cada área abrange centenas de temas continuamente observados e analisados por exércitos de pós-doutores, doutores e quase doutores. Tudo em prol da ciência e da prática administrativa... Teoricamente.

A massa de conhecimento gerado é impressionante. Os 30 periódicos científicos mais importantes do mundo publicam, cada um, 50 a 60 artigos ao ano. Além dessa seleta lista, há dezenas de outras revistas acadêmicas, congressos e teses produzindo conhecimentos muito além da imaginação de qualquer gerente de agência bancária. Entretanto, como ocorreu em outros campos científicos, a superespecialização no campo da administração tornou parte dos artigos e trabalhos desenvolvidos inacessível à maioria dos mortais.

A Academy of Management Review é um dos periódicos de maior tradição e prestígio na área da administração. No principal ranking de publicações científicas, esse periódico norte-americano é o primeiro nas categorias de gestão e negócios. Um rápido exame dos artigos publicados dá um bom retrato da praga do jargão científico. Na edição de outubro de 2013, encontramos títulos tais como: The social negotiation of group prototype ambiguity in dynamic organizational contexts; e Shatering the myth of separate worlds: negotiating nonwork identities at work.

Se cruzarmos o Atlântico, a situação é semelhante. A edição de novembro de 2013 do periódico Organization Studies, um dos mais respeitados da Europa, traz pérolas como Rogue resistance: sidestepping isomorphic pressures in a patchy institutional field; e Can sociological paradigms still inform organizational analysis? A paradigm model for post-paradigm times. Simples!

Michael Billig, professor da Universidade Loughborough, no Reino Unido, realizou uma longa reflexão sobre as causas do hermetismo nas ciências sociais. No livro Learn to Write Badly: How to Succeed in the Social Sciences (Cambridge University Press), o autor descreve sua frustrante experiência com leituras acadêmicas. Ao iniciar o doutorado, Billig sentia-se incapaz diante dos textos científicos. Sua estratégia de sobrevivência consistia em “traduzir” o que lia em termos mais simples. Vez por outra, finalizada a “tradução”, ficava perplexo. Teria sido uma falha sua ou aqueles autores estavam apenas a escrever trivialidades com uma linguagem rebuscada?

Ao longo da carreira acadêmica, Billig desenvolveu uma visão ácida acerca dos textos acadêmicos e sua prosa pomposa, frequentemente pobre de ideias. Segundo ele, nas últimas décadas, aumentou consideravelmente a pressão para produção de artigos científicos. Cada campo se torna mais e mais fragmentado: a academia transformou-se em uma gigantesca colcha de retalhos, habitada por pequenos círculos de pesquisadores, produzindo apressadamente.

Dentro dessas pequenas tribos, pesquisadores determinam seus temas de investigação pensando em assuntos que agradem a seus pares e facilitem futuras publicações, não com base no que pode ser do interesse das organizações ou da sociedade. Além disso, acadêmicos competem por recursos, cargos e atenção. Por isso, agem como pequenas agências de publicidade, dispostos a vender produtos para seus pares e editores de revistas científicas.

A superespecialização e o hermetismo geram impactos negativos também na formação de futuros gestores. Em entrevista concedida ao jornal Valor Econômico, Dominique Turpin, diretor do IMD, renomada escola suíça de administração, comentou que as instituições de ensino estão se tornando cada vez mais acadêmicas, buscando professores não por sua capacidade de ensino, mas por sua capacidade de publicar artigos científicos. Tais profissionais são experts, como exemplifica Turpin, em trilhas sonoras para supermercados, cores para rótulos de garrafas ou preços na indústria farmacêutica. Como poderão ensinar gestores que precisam ter visão generalista e o domínio de assuntos variados? Onde estará a resposta, meu amigo? Soprará ao vento?

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