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Número 775,

Internacional

Holocausto

O Dia da Vergonha

por Walter Maierovitch publicado 18/11/2013 06h11, última modificação 18/11/2013 06h55
Em 16 de outubro de 1943, tropas nazistas deportaram 1.524 judeus do gueto de Roma para Auschwitz. Apenas 16 sobreviveram. Por Walter Maierovitch
Flickr / JohnFinn
 Auschwitz

O campo de extermínio polonês de Auschwitz, onde desembarcaram 1.524 pessoas em 16 de novembro de 1946. Sobreviveram 15 homens e uma mulher. Nenhuma criança.

Gueto é um termo do dialeto vêneto e difundido a partir de 29 de março de 1516 em razão da vigência, na República de Veneza, de decreto segregatório, antissionista. Os hebreus passaram a ocupar um reduto denominado “ghetto”, onde hoje os turistas visitam a sinagoga barroca da época. No ghetto veneziano havia só uma entrada por terra, fechada à chave durante a noite e só reaberta ao amanhecer, acontecimento esmiuçado na Storia del Ghetto di Venezia, do historiador Riccardo Calimani.

O gueto nasceu
como resposta à pressão dos franciscanos a favor da expulsão dos judeus. Para eles, os judeus eram os “assassinos” de Cristo e, no particular, esqueciam-se dos romanos. O governo e os mercantes queriam mantê-los na sereníssima laguna e evitar o regresso à cidade de Mestre. A razão era simples: os hebreus eram os únicos capazes de arcar com as despesas de uma guerra tida como iminente. À época, a cidade sofria o assédio de conquistadores franceses apoiados na denominada “Lega di Cambrai”, que contou, por um tempo, com o aval do papa Giulio II Della Rovere, interessado em encampar para a Igreja as pujantes Ravena e Veneza.

Pelo decreto, os hebreus só podiam comercializar roupas usadas e nos seus trajes deveriam ter costurado um círculo identificador de cor amarela. A comunidade hebraica do gueto veneziano pagava as despesas das embarcações de vigilância. Desde a Quinta-Feira de Endoenças ao Domingo da Ressurreição de Cristo ninguém saía ou entrava no gueto. Como a usura era proibida aos cristãos, os empréstimos eram realizados pelos hebreus com pequena vantagem financeira. Nada semelhante à novela-trágica de Giovanni Fiorentino, obra reelaborada, com o título de O Mercador de Veneza, por William Shakespeare. Não se deve olvidar que, além do ghetto, havia a Veneza onde nasceram os bancos e foram criados os títulos formais de crédito. No interior do gueto, os hebreus podiam livremente professar sua religião.

O modelo de gueto veneziano agradou ao papa Gian Pietro Carafa, que forçou a sua implantação em Roma e tão logo assumira o trono petrino, em 1555, com o nome de Paulo IV. Da sua bula papal, com exortação à criação de guetos em todos os Estados vizinhos, existiam mais proibições do que aquelas de Veneza. De tal maneira, os hebreus só podiam ter uma sinagoga, era vedada a aquisição de imóveis e a contratação de serviçais cristãos.

A bula do papa Carafa, intitulada Cum nimis absurdum, era absurdamente racista desde o primeiro parágrafo: “É absurdo e inconveniente no grau máximo que os hebreus, que por sua culpa foram condenados por Deus à escravidão eterna, possam ser tolerados a manter habitação entre nós, com a escusa de serem protegidos pelo amor cristão”.

Implantou-se o gueto romano a partir das ruínas do Pórtico de Otávia, à margem do Rio Tibre. Na Segunda Guerra Mundial, os problemas voltaram por conta da ocupação nazista de Roma e por nove meses: setembro de 1943 a junho de 1944. A ocupação veio em represália à assinatura do Armistício de 8 de setembro de 1943.

As tropas nazistas promoveram, no ghetto romano, um dos mais vergonhosos e desumanos episódios da história. Em 16 de outubro de 1943, no amanhecer do sábado, os nazistas sequestraram 1.024 hebreus residentes no gueto. No dia seguinte foram mais 500 e entre os capturados estavam 200 crianças. Os capturados foram deportados em 18 vagões que aguardavam na Estação Tiburtina. Destino: o campo de extermínio polonês de Auschwitz. Dos 1.524 embarcados, sobreviveram 15 homens e uma mulher. Nenhuma criança.

Na margem do Tibre, chamava atenção o silêncio absoluto do papa Pio XII. E, ao contrário do hábito das guerras, não era o sequestro para trabalhos forçados por homens. Também foram levados ao campo de extermínio mulheres, velhos e as mencionadas 200 crianças.

A comunidade hebraico-romana continua a relembrar com dor e memória viva, no gueto do Pórtico de Otávia e defronte à maior sinagoga da Europa, os 70 anos do chamado “Dia da Vergonha”. O sensível e humilde papa Francisco, bispo de Roma, transmitiu a Riccardo Di Segni, o rabino da cidade, a sua solidariedade e amargor: “É nosso dever manter sempre presente, diante dos nossos olhos, o destino daqueles deportados, perceber os seus medos, as suas dores, os seus desesperos, tudo para não nos esquecermos e para mantê-los vivos nas nossas recordações e nas nossas orações”.

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