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Número 775,

Economia

Economia

A bússola necessária

por Delfim Netto publicado 20/11/2013 05h58
Precisamos de uma política fiscal adequada, apta a se comprometer de forma crível na condução da expectativa da inflação para a meta de 4,5%
Flickr / Tim Evanson
Fed

Toda a sofisticação das políticas não impediu a extensão da maior crise do capitalismo dos últimos 80 anos

Cinco anos decorridos desde a crise que desorganizou profundamente a economia mundial e consumiu 50 milhões de empregos, é inegável concluir que as políticas monetárias postas em prática nos principais países do Ocidente apenas conseguiram evitar o apagão universal representado por uma nova Grande Depressão, como a dos anos 1930. Muito pouco se obteve com as tentativas de ajuste fiscal posteriores a essas políticas, enquanto se escondiam das sociedades, atrás de modelos matemáticos de alta sofisticação, as consequências macroeconômicas que nem os governos nem os próprios bancos centrais entendiam. O fato é que toda a sofisticação das políticas não impediu a extensão da maior crise do capitalismo dos últimos 80 anos.

Uma demonstração
disso ficou evidente nos últimos seis meses com as dificuldades de conciliação dos membros do alto comando do Federal Reserve, o banco central dos EUA, para fixar a data do início da redução das compras mensais de títulos do Tesouro. Como complemento, a substituição de Ben Bernanke, na presidência do Comitê de Política Monetária e do Fed, decidida mês passado em favor da economista Janet Yellen, defensora da continuidade do programa de incentivos para fortalecer o crescimento econômico. O mundo se pergunta se ela poderá ser independente, diante das pressões do conservadorismo dominante no Partido Republicano, com maioria na Câmara de Representantes, ou, mais sutilmente, “indiferente” perante os interesses do lado ganhador.

Mais severa, por exemplo, com a taxa de desemprego do que com a taxa de inflação? Têm sido trágicas as consequências das políticas monetárias de muitos bancos centrais, apoiadas em pura ideologia transformada em “verdade teórica”, como a da “supremacia absoluta dos mercados”, principalmente o financeiro, origem da crise engolidora dos empregos de milhões de honestos trabalhadores. É preciso reafirmar que nem seus “inventores” avaliavam o poder destrutivo de suas construções abstratas quando suas hipóteses “a priori” fossem negadas pelas incertezas essenciais do mundo real.

Nada disso sugere serem inúteis os precários conhecimentos acumulados e o aperfeiçoamento dos modelos. Eles evidenciam a sua própria necessidade e indicam que devemos ter a maior humildade diante dos terríveis sacrifícios passíveis de ser impostos aos pacientes de nossas recomendações. Entende-se facilmente por que para os clássicos (Adam Smith, Karl Marx, Marshall, Thorstein Veblen, Keynes) a economia (se for uma coisa) há de ser uma “disciplina moral”, não para apenas fazer o bem, mas para evitar o mal maior resultante de seus erros.

Se confirmada em janeiro, Janet Yellen poderá se valer de alguns exemplos de sinceridade de dois antecessores, caso do pragmático Alan Greenspan (o “maestro” de 2006, antes da crise), que declarou honestamente em 2011: “Talvez tenhamos tido maior crença nos mercados financeiros e nas teorias que os sustentavam do que deveríamos”. Ou na confissão que Ben Bernanke, um teórico reconhecidamente competente, explorador como ninguém das consequências da crise de 1930, em 2013, sustentou: “Estamos navegando sem bússola, em noite escura e mar revolto”, a nos lembrar do Camões dos mares “ignotos” nunca dantes navegados...
As recentes indefinições dos bancos centrais são apenas uma manifestação das “incertezas” a assombrar os formuladores da política econômica em todo o mundo. Os efeitos do relaxamento monetário americano (o quantitative easing) perderam eficiência, na margem, mas é claro que retirá-los (o tapering) não é uma tarefa trivial. O Federal Reserve está enrascado no problema de como realizar tal façanha sem produzir um terremoto nos mercados financeiros mundiais.

Por outro lado, a política de anunciar o comportamento do banco central (forward guidance) não limitada a condicionalidades físicas, mas apenas ao calendário da execução, pode apresentar problemas, como é o caso de nossa política cambial.

No que diz respeito ao Brasil, não precisamos de novidades na política monetária. Necessário é auxiliá-la com uma política fiscal adequada, apta a se comprometer de forma crível na recondução da “expectativa” da inflação para a meta de 4,5%, em um horizonte aceitável. Como ninguém tem certeza de como fazê-lo, é preciso disposição firme do governo, muito cuidado e alguma paciência.

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