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Número 774,

Saúde

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O valor de uma consulta

por Riad Younes publicado 10/11/2013 09h23
Como não se pode medir objetivamente a qualidade do médico e assim avaliar os custos do tratamento, é preciso ficar bem atento
Arte CartaCapital
Saúde

O doente considera importante, além das credenciais técnicas, respeito, empatia e atenção

A disparidade é imensa. Basta levantar o telefone e tentar marcar consulta com médicos da mesma especialidade e perguntar sobre o custo do atendimento. Entre um médico e outro, a variação pode ser de até 1.000%. Recentemente, encaminhei um paciente para ser avaliado por um oncologista clínico, após ter sido submetido à retirada de um câncer de pulmão. Precisava de tratamento quimioterápico para aumentar as chances de o tumor nunca mais reaparecer. Dois dias depois, ele me liga preocupado. Telefonou a três oncologistas e cada um informou um valor de honorários totalmente diferente.

A dúvida era se o médico que cobraria 50% mais seria mais atualizado, mas bem equipado, com resultados e benefícios mais certeiros. Claro que não, necessariamente.  O valor da consulta sai da cabeça de cada profissional. Sem dúvida, o médico leva em consideração sua percepção de próprio conhecimento, especialização, experiência, capacidade resolutiva. Mas, ainda assim, sua própria percepção. Atualmente, no Brasil e no mundo, o médico, na iniciativa privada, é pago para cada procedimento realizado. É o famoso sistema fee-for-service: pagamento por serviço prestado. Tira um apêndice, ganha tanto. Faz um cateterismo, recebe outro tanto.

Com os custos gerais da saúde atingindo a estratosfera, porém, economistas, administradores, médicos e, principalmente, convênios de saúde e autoridades tentam controlar esse monstro em várias frentes. Uma delas atingiria diretamente o bolso do médico. Discute-se a introdução de sistema de fee-for-value, pagamento por valor; ou fee-for-performance, pagamento por resultado.

Resumidamente, o médico com melhores evoluções, sucessos em cirurgias, taxas de cura de pacientes, menores índices de complicações e de mortalidade ganharia mais. Os honorários não se baseariam mais na percepção individual, mas em parâmetros objetivos.

Os hospitais adorariam essa ideia, tendo em vista a competição acirrada entre instituições para atrair médicos e doentes, concorrendo pelos pagamentos dos convênios de saúde e até dos próprios pacientes. Mas, apesar de parecer muito atraente a possibilidade de dar notas ao desempenho de cada médico, incluindo a avaliação do uso indevido e desnecessário de procedimentos, exames e testes, a tarefa não é tão simples assim. Como medir objetivamente a competência e o valor de cada médico?

Do ponto de vista
dos pacientes, um editorial publicado recentemente na revista New England Journal of Medicine discute isso. A gradação do valor do médico. Segundo uma pesquisa, os pacientes percebem a competência do profissional como sendo “o uso habitual e cuidadoso de comunicação, conhecimento, habilidades técnicas, raciocínio clínico, emoção, valores e reflexões na prática diária da medicina, todos colocados para o benefício do indivíduo ou da comunidade a  que ele serve”.

De acordo com os estudos, o doente considera de suma importância, além das credenciais técnicas, a confiança do médico, sua empatia, humanidade, personalidade, honestidade, respeito e atenção. Um sistema de avaliação deveria poder colocar um valor para tais parâmetros na balança. Para muitos especialistas e estudiosos, essa tarefa não será simples, para não dizer impossível. De volta ao meu paciente, deixei a critério dele escolher o médico em quem mais confiou. Independentemente de quanto cobra, e de quão são elevadas sua autopercepção e sua autoestima.

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