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Número 774,

Sociedade

Análise / Thomaz Wood Jr.

Faz bem sonhar acordado

por Thomaz Wood Jr. publicado 13/11/2013 05h57
Flanar semiconsciente pelo mundo da imaginação, conectando sem compromisso fatos e ficções, é essencial para construir o futuro

La science des rêves (2006) é um filme francês de verve surrealista, dirigido por Michel Gondry. O ator mexicano Gael García Bernal vive Stéphane Miroux, jovem cujos sonhos avançam frequentemente sobre a realidade. Gondry traz o espectador para o mundo de Stéphane, borrando frequentemente a linha que separa imaginação e realidade. À época do lançamento, A. C. Scott, crítico de cinema do jornal The New York Times, observou que o filme, com sua intensa pe­culiaridade, seu desapego às leis da física e da linguagem cinematográfica, seu desrespeito pela lógica e pela coerência, traz paradoxalmente um registro autêntico e fidedigno da vida.

Jessica Lahey, em texto veiculado no website da revista The Atlantic, faz uma defesa dos encantos de sonhar acordado e, indiretamente, dos Stéphane Miroux que ainda teimam em navegar com a mente solta por uma sociedade obcecada pela objetividade. Seu foco de atenção (e preocupação) são os mais jovens: as crianças bombardeadas continuamente com estímulos e atividades, sem tempo para flanar livres pelo mundo da imaginação. Entre os mais jovens, o grande inimigo dessa saudável navegação interior são as distrações tecnológicas: a tevê, os videogames e outras armadilhas eletrônicas. A mensagem de Jessica Lahey, como a de Gondry, serve a todas as idades.

Sonhar acordado é, segundo Lahey, o que ocorre quando a mente, livre das preocupações do dia a dia, vaga sem amarras entre pensamentos randômicos e memórias aleatórias. Trabalhos clássicos da Psicologia, anota a autora, situam a atividade de sonhar acordado como uma função cerebral fundamental: uma forma de pensar essencial para manter nossa saúde emocional e intelectual.

Para o observador externo, pode parecer pura preguiça. No entanto, o ato de sonhar acordado se relaciona ao desenvolvimento da autoconsciência e da criatividade, à capacidade de planejamento e de improvisação, à ­possibilidade de ­reflexão profunda sobre as experiências cotidianas e ainda ao raciocínio moral. A aparência pode ser de devaneio sem rumo, porém o cérebro pode estar operando um processo neurológico complexo, sofisticado e produtivo.

Viajar despreocupadamente por emoções imperfeitas e pensamentos (aparentemente) desconexos tem ainda efeito terapêutico: alivia a tensão e o estresse. Conclusões de Jessica Lahey: cultivar o silêncio e sonhar acordado é essencial. Então, sugere a autora, corte as distrações eletrônicas e reserve tempo para os devaneios, caminhe sem rumo nem fones de ouvido.

O inglês Neil Gaiman, autor de romances, livros infantis e quadrinhos, declarou recentemente em uma palestra para a Reading Agency (reproduzida pelo jornal The Guardian) que o nosso futuro depende de livrarias, da leitura e da capacidade de sonhar acordado. O autor abriu sua palestra mencionando que a próspera indústria americana de construção de prisões usa como variável para a previsão da demanda (a necessidade futura de celas) o porcentual de crianças com 10 e 11 anos incapazes de ler. Significativo! Para Gaiman, temos a obrigação de sonhar acordados e usar a imaginação. Essas atividades nos fazem criar mundos alternativos, que nos permitem construir o futuro.

No mundo do trabalho, a atividade de sonhar acordado já teve dias melhores. Muitas organizações contemporâneas declaram amor incondicional pela criatividade e pela inovação. Paradoxalmente, continuam a refrear, disciplinar ou expelir seus sonhadores. Eles resistem como podem, sonhando acordados para enfrentar o tédio no trabalho. A Revolução Industrial e a ascensão das linhas de montagem sepultaram a criatividade e exilaram os sonhadores.

À medida que o fordismo-taylorismo cruzou as fronteiras das fábricas e avançou no mundo do comércio e dos serviços, os sonhadores foram estigmatizados e encurralados. A eles foram destinados apenas os pequenos territórios e as margens. Não lhes restaram nem os territórios da cultura, cujas províncias foram significativamente rebatizadas de indústrias criativas, agora sintomaticamente unidas em torno da economia criativa.Tudo pelo mercado!