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Número 774,

Cultura

Dossiê 50

Divã de presídio

por Rosane Pavam publicado 10/11/2013 09h22, última modificação 10/11/2013 10h40
Geneton Moraes Neto foi aos jogadores das seleções de Brasil e Uruguai para entender o fiasco da Copa do Mundo de 1950. Por Rosane Pavam
Claudio Iannone
timeformado

Onze homens e um segredo. A partir da esquerda, de pé: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode. Agachados: Friaça, Zizinho, Ademir, Jair, Chico e o massagista Mário Américo.

Quando o estádio fica vazio durante uma partida, o jogador ouve xingamentos, ensinou Zizinho. Quando fica cheio, um zunido. Mas no Maracanã de 200 mil torcedores, em 16 de julho de 1950, ocorreu o inesperado. Ninguém xingou ou zuniu após o gol decisivo do uruguaio Ghiggia. A falta de incentivo, acreditam muitos, contribuiu para que o Brasil tivesse perdido ali sua primeira final de Copa do Mundo. Contudo, jogador naquela partida, Zizinho mal se lembrava do silêncio de tumba 13 minutos antes do fim. Ademais, ele sempre soube que quem ganha ou perde é o time, não a torcida.

Seu modo de ver as coisas, contudo, jamais representou consenso. Depois da derrota, os jogadores se viram aturdidos, inclinados a recuperar mentalmente os fatos, como num tribunal, e as memórias se desencontraram. O ponta-direita Friaça, por exemplo, ficou ausente de si mesmo por dois dias após a final, até se ver debaixo de uma jaqueira em Teresópolis. Todos tiveram sonhos terríveis, alguns por décadas a partir dali, presos a uma espécie de divã de presídio. Eles se lembravam de uma partida diferente daquela que ninguém filmou.

Futebol é guerra. E os jogadores se viram encarcerados nesse inconsciente de lutador. 1950 encenou a maior e mais simbólica derrota futebolística brasileira, por ocorrer quando o País tentava anular os desmandos do Estado Novo. Os jogadores deveriam ser tão elegantes quanto essa nova sociedade, pensava o técnico Flávio Costa. Perdemos por isso? Entre 1986 e 1987, Geneton Moraes Neto ouviu técnico e jogadores brasileiros. Na reedição de um dossiê ampliado pela entrevista feita neste ano com Ghiggia, ele investigou os desencontros entre as impressões.

Quem lê o livro desenha razões técnicas para o Uruguai ter jogado melhor que o Brasil. Juvenal não combateu Ghiggia, que antes ultrapassara Bigode na corrida. E havia um inesperado segundo uruguaio plantado entre o artilheiro Ademir e o gol. Mas o culpado amplamente parece ter sido aquele de sempre. Em apoio a um projeto político, e também a alguns políticos, a imprensa proclamou o Brasil campeão antes do jogo. E, não contente, comprou a versão de Juvenal para a derrota. Ainda em campo, o jogador eximiu-se da culpa para jogá-la sobre o técnico Flávio Costa,  o goleiro Barbosa e o zagueiro Bigode.