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Número 774,

Tecnologia

Anúncio ou big brother?

por Felipe Marra Mendonça publicado 11/11/2013 05h52, última modificação 11/11/2013 06h51
Scanner identifica o rosto do consumidor e projeta um comercial específico. Por Felipe Marra Mendonça
Samuel Lorenzetti
tesco

A rede inglesa Tesco pretende usar o software em seus postos

Na segunda-feira 4, a rede britânica de supermercados Tesco disse pretender instalar telas de cristal líquido para mostrar anúncios nas filiais que contam com postos de gasolina (ao todo, 450 estabelecimentos). Nada de anormal, não fossem as telas, a serem dispostas acima dos caixas, capazes de identificar através de um scanner o rosto do cliente, para em seguida apresentar propagandas selecionadas segundo o perfil do consumidor. Comercializada pela empresa inglesa Armscreen, a tecnologia de leitura facial foi desenvolvida pela francesa Quividi.

“É um software que funciona a partir do vídeo capturado pela câmera instalada na tela. Ela pode detectar se é um rosto, mas nunca grava a imagem, traços e informações morfológicas. E sabe dizer se à sua frente está um homem ou mulher, por quanto tempo olham a tela e permanecem em frente ao aparelho”, disse ao diário inglês The Guardian Ke Quang, presidente da Quividi.
Estudo divulgado pela empresa francesa em seu site comprovaria a eficácia do software. Em teste com 856 pessoas (621 homens e 235 mulheres), o programa teria sido capaz de identificar os homens com precisão de 95% e as mulheres, de 87%. O problema, no caso do universo feminino, se deu por muitas delas usarem bonés. Excluídas essas, a margem de acerto foi de 92%. Entre os critérios do software estão o tamanho da testa e a proporção entre a largura e a altura do rosto.

Munido dessas informações, o sistema faz um cálculo e estima a idade de quem está em frente da tela e mostra o comercial específico. Há quem considere a tecnologia problemática. “As pessoas aceitam algum grau de monitoramento por questões de segurança pública, mas esses sistemas só existem para nos monitorar e coletar dados de marketing. As pessoas nunca aceitariam uma situação em que a polícia mantivesse um registro das lojas, mas essa tecnologia poderia acabar nisso. Daí para um Estado policial nas portas de lojas é só um pulo”, disse Nick Pickles, da ONG Big Brother Watch, defensor das liberdades civis. Quang, da Quividi, por sua vez, diz que isso não acontecerá e frisa que “o sistema não grava qualquer informação”.
Na dúvida, talvez a melhor opção seja mesmo usar bonés na hora de ir às compras. Um belo futuro.