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Número 773,

Política

Entrevista

Verdade exumada

por Rodrigo Martins publicado 04/11/2013 18h02, última modificação 04/11/2013 18h06
Pesquisas captaram um amplo apoio popular a Jango às vésperas do golpe, revela o historiador Luiz Antonio Dias
Reprodução
jangocomício

No comício da Central do Brasil, a maioria aprovava as reformas propostas por Jango

Em 12 de março de 1964, o jornal O Estado de S. Paulo anunciava em seu editorial o “aprofundamento do divórcio entre o governo da República e a opinião pública nacional”. A exemplo dos seus pares, o diário da família Mesquita conclamava para uma intervenção militar, capaz de pôr fim à ameaça comunista representada pelo governo de João Goulart. A voz do povo precisava ser ouvida, bradava a mídia. Um estudo conduzido por Luiz Antonio Dias, chefe do Departamento de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, demole essa visão consagrada pelos meios de comunicação. Com base em pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do golpe, mas não divulgadas à época, Dias demonstra que não apenas Jango tinha amplo apoio popular, como também grandes chances de vitória caso disputasse as eleições presidenciais previstas para 1965.

As pesquisas foram doadas pelo Ibope, em 2003, para o Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp, mas até hoje a maior parte dos dados permanece desconhecida. Dias pretende destrinchá-los em um capítulo do livro O Jornalismo e o Golpe de 1964: 50 anos depois, obra coordenada por um núcleo da Universidade Federal do Rio de Janeiro e com lançamento previsto para abril de 2014. “Todos os jornais de expressão nacional clamavam pela intervenção das Forças Armadas, sempre em nome da opinião pública. E os militares, em seus livros de memória, usam esse apoio como justificativa: eles só agiram porque a população pediu. As pesquisas do Ibope provam o contrário.


CartaCapital: Como a historiografia brasileira retrata Jango?

Luiz Antonio Dias: Até uns 10, 15 anos atrás, havia um consenso de que João Goulart foi deposto por não ter apoio popular e ser um líder fraco. Segundo essa interpretação, ele não teria a mesma habilidade de Getúlio Vargas, seu padrinho político, e chegou ao poder por conta das circunstâncias do período. De fato, havia uma situação incomum. Jânio Quadros elegeu-se presidente em uma coligação liderada pela UDN, ao passo que Goulart venceu a disputa para vice pelo PTB. Eram partidos rivais. Para assumir a Presidência após a renúncia de Quadros, tornou-se refém daqueles que conseguiram impor o regime parlamentarista e também da esquerda, que se mobilizou para garantir a sua posse.

CC: A visão mudou?

LAD: Nos últimos anos, documentos e depoimentos apontam para um caminho diferente. De acordo com o historiador Jorge Ferreira, o presidente sabia de toda a articulação norte-americana pelo golpe, e esmerou-se para evitar uma guerra civil com a interferência de uma potência estrangeira. Naquela época, imaginava-se que os militares brasileiros iriam intervir, mas sairiam rapidamente, como ocorreu em episódios anteriores, a exemplo da Revolução de 1930. E pesquisas de opinião feitas pelo Ibope em março de 1964, mas não divulgadas à época, desmontam a tese de que Goulart não tinha apoio popular. Não apenas tinha altos índices de aprovação, como um grande potencial eleitoral. Este é o objeto da minha atual pesquisa.

CC: Quem construiu essa imagem de um líder fraco e sem apoio?

LAD: Por ser um homem de personalidade mais retraída, em busca do consenso, Goulart pode ter passado essa impressão de fragilidade. O jornalista Elio Gaspari, no livro A Ditadura Envergonhada, ajuda a consolidar essa imagem. O presidente é apresentado como um “pacato vacilante”, que beira à covardia. O curioso é que a mesma obra, um pouco mais adiante, diz que Goulart se articulava para sair candidato em 1965. É uma contradição lógica. Não faz sentido imaginar que alguém que não via a hora de o mandato acabar, como diz Gaspari, estivesse engajado no projeto de alterar a Constituição e disputar a reeleição. Mas, de certa forma, a mídia contribuiu muito para difundir essa tese falaciosa de que Jango não tinha apoio popula

CC: Como o senhor avalia a participação da mídia no golpe?
LAD: Em 2010, publiquei um capítulo no livro História do Estado de São Paulo, organizado por João Ricardo de Castro Caldeira e Nilo Odalia, no qual analiso a postura da Folha e do Estado de S. Paulo no período anterior ao golpe. As reportagens e os editoriais enfatizavam o isolamento de Goulart e a oposição da população às reformas de base, consideradas demagógicas. À exceção do Última Hora de Samuel Wainer, todos os jornais de expressão nacional clamavam por uma intervenção das Forças Armadas, sempre em nome da opinião pública. É interessante, pois os militares, em seus livros de memória, usam esse apoio como justificativa: eles só agiram porque a população pediu. As pesquisas do Ibope provam o contrário

CC: Por que elas não foram divulgadas à época?

LAD: É possível que elas não tenham sido divulgadas porque não deu tempo de tabular os resultados. O golpe ocorreu dias após o trabalho de campo. Mas sou tentado a acreditar que elas só demoraram quatro décadas para vir a público porque contrariavam o discurso da mídia e os interesses dos contratantes, a exemplo da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Apenas em 2003, quando o Ibope doou seu acervo para a Unicamp, dados parciais de duas pesquisas foram divulgados pela imprensa.

CC: O que revelavam essas pesquisas?

LAD: A primeira, sem indicação de contratante, revelava amplo apoio à reforma agrária, com um índice superior a 70% em algumas capitais. A outra, realizada em São Paulo a pedido da Fecomercio na semana anterior ao golpe, apontava que 72% da população aprovava o governo Jango. Entre os mais pobres a popularidade alcançava 86%. Esse mesmo estudo revela que 55% dos paulistanos consideravam as medidas anunciadas por Goulart no Comício da Central do Brasil, em 13 de março, como de real interesse para o povo. Mas o acervo doado pelo Ibope é muito maior. Coletei mais de 500 páginas de pesquisas feitas entre 1961 e 1965 a revelar a dimensão do apoio popular a Jango e como ele tinha grandes chances de vitória caso disputasse as eleições.

CC: Esse apoio era sólido o bastante para garantir uma vitória?

LAD: Tenho elementos para acreditar que sim. Em junho de 1963, Jango era aprovado por 66% da população de São Paulo, desempenho superior ao do governador Adhemar de Barros (59%) e do prefeito Prestes Maia (38%). Além disso, uma pesquisa eleitoral realizada em março de 1964 revela que, caso fosse candidato no ano seguinte, Goulart teria mais da metade das intenções de voto na maioria das capitais pesquisadas. Apenas em Fortaleza e Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek tinha porcentuais maiores (tabelas abaixo).

CC: E os 200 mil manifestantes reunidos na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, em São Paulo?

LAD: Entre as classes A e B, a rejeição a Goulart era um pouco maior em 1964. Ao menos 27% avaliavam o governo como ruim ou péssimo na capital paulista. Não há, porém, razões para desconfiar dos dados, até porque a direção do Ibope afirmou que as pesquisas da década de 1960 seguiam procedimentos semelhantes ao dos levantamentos atuais. E o contratante é a Fecomercio, que não tinha interesse de inflar a popularidade de Jango.

CC: O senhor acredita na tese do assassinato do presidente?

LAD: Em menos de um ano, os três principais nomes da oposição morreram em circunstâncias suspeitas. Juscelino Kubitschek faleceu em um desastre de automóvel em agosto de 1976, e o motorista do ônibus que supostamente provocou o acidente afirmou, tempos mais tarde, ter recebido dinheiro para assumir a culpa. Em dezembro, foi a vez de Goulart, vítima de ataque cardíaco, talvez provocado pela troca de seus remédios por um espião. Em maio de 1977, morre Lacerda em decorrência de um infarto, também alvo de especulações. A Comissão da Verdade vai exumar o corpo de Goulart para tentar identificar as suspeitas de envenenamento. Se ele ingeriu arsênico, traços dessa substância podem estar na ossada. Mas tenho poucas esperanças de um laudo conclusivo. Ao menos ele será sepultado novamente com honras de chefe de Estado, direito negado pela ditadura.

CC: Como o senhor avalia o trabalho da Comissão da Verdade?

LAD: Alguns historiadores criticam o fato de o grupo requentar histórias antigas. De fato, não surgiu nenhuma revelação bombástica capaz de mudar os rumos da historiografia. Mas tenho uma visão mais otimista. A mídia tem dado maior destaque às violações cometidas pela ditadura por conta desse trabalho. É a exumação da história para o grande público. Se a população passar a se interessar mais pelo que ocorreu nesse período, a Comissão da Verdade terá deixado uma grande contribuição.

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