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Número 773,

Sociedade

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Vai devagar que sinto cócegas

por Vitor Knijnik — publicado 05/11/2013 05h59
Achei que as notícias sobre a exumação do meu cadáver deixariam a nação de joelhos, à espera dos próximos acontecimentos. Se não, eu terei sido submetido a cócegas com luvas de látex por nada
Do Blog do Jango
Jango

Sobre mim: uma espécie de Vasco da Gama da política eleitoral brasileira. Tive uma história linda, de vitórias, de defesa da classe trabalhadora e de luta pela liberdade. Vice por duas vezes consecutivas, acabei rebaixado por um golpe civil-militar em 1964 e nunca mais voltei a ser o mesmo

Achei que as notícias sobre a exumação do meu cadáver deixariam a nação de joelhos, paralisada, à espera dos próximos acontecimentos. Não se trata de imodéstia. As circunstâncias da minha morte e tudo que ela envolve são mais interessantes do que a maioria das novelas e seriados do momento. Imaginei que pelo menos os fãs de House of Cards e Walking Dead demonstrariam algum interesse. Se alguma revelação vier a público no mesmo dia em que, por exemplo, um Pato qualquer perca um pênalti, creio que a repercussão não passará de alguns retuítes. Eu terei sido submetido a cócegas com luvas de látex por nada.

O episódio fica ainda mais interessante com os personagens ao redor da trama principal. Chamaram um perito cubano em exumações. O mesmo sujeito que exumou Che Guevara. Passei minha carreira política inteira tentando convencer os brasileiros de que não era comunista. Aí vão me exumar e chamam um cubano? Que beleza, hein, camaradas? O PCB não teria feito melhor. Ah, e espero que ele não seja hostilizado no aeroporto nem peça asilo na minha cova. Aliás, cabe a pergunta: não há peritos no Brasil? Pelo jeito, o governo está precisando criar também o programa Mais Exumadores.

Apesar da concorrência desleal com os concursos de Miss Bumbum e a reta final do Brasileirão, penso que a exumação significa uma chance de voltar à mídia. Tinha uma carreira promissora nos anos 1960, mas fiz escolhas erradas. Em primeiro lugar, em 1961, quando Jânio renunciou, deveria ter fingido que não era comigo e ficado comendo uns yakissobas com o Mao na China. De repente, teria criado por lá uma estatal chinesa da construção civil, a ???? ou Reformas de Base S.A. Enterraríamos a concorrência e estaríamos em tudo quanto é loja de piso do mundo hoje em dia.

Mas o que mais me arrependo é do Comício da Central. Foi um erro de planejamento estratégico. Pra começo de conversa, falando em exumação de cadáver, o Serra, então presidente da UNE, discursando, só podia ser um mau agouro. Além disso, deveria ter colocado uns artistas se apresentando. Uns medalhões da MPB pros coroas, um Teatro Mágico da vida pra galera mais jovem e até uns padres cantores ou umas atrações da música gospel. Quem sabe não era uma maneira de impedir o toque alto do clarinete. Com sorte seria o suficiente pra evitar a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

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