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Número 773,

Internacional

Entrevista - Magid Shihade

“Israel não tem interesse na criação de Estado palestino”

por Gianni Carta publicado 01/11/2013 14h44, última modificação 01/11/2013 16h49
Em entrevista, professor da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, vê as atuais negociações de paz entre Israel e Palestina com ceticismo. Por Gianni Carta
Gianni Carta
Magid Shihade

Magid Shihade, professor de Relações Internacionais da Universidade de Birzeit

Magid Shihade, professor de Relações Internacionais da Universidade de Birzeit, na Cisjordânia, atualmente a lecionar sobre Oriente Médio e Ásia do Sul na Universidade da Califórnia, em Davis, vê as atuais negociações de paz entre Israel e Palestina com ceticismo. Para o acadêmico, Israel fará o possível para impedir a existência do Estado da Palestina. Para justificar seu pessimismo, Shihade aplica a tese já defendida no seu último livro, Not Just A Soccer Game: Colonialism and Conflict Among Palestinians and Israel (Syracuse University Press, 2011, 175 págs., 23 libras esterlinas). “O Estado israelense é um Estado colonial judeu voltado a afirmar a supremacia racial, visando tornar os judeus grupo dominante por sua própria natureza.” Daí, continua Shihade, “seu interesse e seu raciocínio é marginalizar os não judeus (palestinos), deslocá-los se possível, como fez com milhões de refugiados, e mantê-los como uma subclasse de cidadãos-súditos, sempre inseguros quanto a seu futuro.”

CartaCapital: A paz israelo-palestina ainda é a questão central em um mundo árabe assolado por uma guerra civil na Síria e crises
no Egito, Líbia e Tunísia, entre outros países?

Magid Shihade: É uma questão central por causa da importância de Israel para o Ocidente e, principalmente, para os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, a Palestina é tema de grande importância para o público árabe.

CC: Segundo William Hague, ministro britânico do Exterior, “a janela está se fechando”. Já não está fechada?

MS: Essa declaração foi feita por inúmeras autoridades europeias e norte-americanas. Elas sabem que Israel não está interessado na criação de um Estado palestino. Portanto, continuam a dizer a mesma coisa só para dar uma ilusão de possibilidade, de esperança. Essas autoridades sabem que as políticas israelenses, incluindo a constante erosão dos territórios da Cisjordânia por meio da construção e expansão de assentamentos, é um fato que todos os governos israelenses continuam a colocar em prática.

CC: A questão dos refugiados palestinos é uma das principais sobre a mesa de negociações. Dos 800 mil árabes que fugiram para a Cisjordânia, Estreito de Gaza e mundo afora em 1948, só 60 mil estão vivos. Aparentemente, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, concordou com os israelenses de que os palestinos nunca retornem para suas casas em Israel.

MS: Os refugiados palestinos fugiram da Palestina em 1948 e muitos deles foram expulsos por sionistas e depois por tropas de Israel. Os israelenses fizeram isso não apenas durante a guerra de 1948, mas também durante a guerra de 1967. Esses sobreviventes são os avós e os pais de milhões de palestinos que vivem hoje no Líbano, Jordânia, Síria e em outros lugares. As resoluções da ONU e a lei internacional lhes dão o direito de retornar se desejarem, ou de receber indenização. Israel ainda hoje não assumiu a responsabilidade por isso. O equilíbrio de poder entre a Organização para a Libertação da Palestina (OLP, uma confederação multipartidária)/Autoridade Palestina e Israel não estabelece condições para que Israel assuma a responsabilidade por ter criado a questão dos refugiados palestinos e para poder agora corrigi-la. Na verdade, duvido que qualquer líder palestino se oponha ao retorno a Israel dos refugiados. No entanto, Israel não permitirá que isso ocorra. As potências ocidentais, especialmente os EUA, concordam com Israel.

CC: O premier Ismail Haniyeh é ingênuo ao pensar que o Hamas pode se aliar ao Fatah, enquanto Benjamin Netanyahu continua a colonizar a Cisjordânia?

MS: O Hamas não aceitará a reconciliação com o Fatah, a menos que o Hamas domine a política da Palestina. Esse também é o caso das negociações do Fatah, a governar a Cisjordânia, em relação ao Hamas. Ambas são legendas que, por sua própria natureza, visam à dominação política. E muitas vezes trabalham para esse fim, mesmo ao custo das metas nacionais da população palestina.

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