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Número 772,

Cultura

Bravo!

A miséria no aquário

por — publicado 26/10/2013 09h53
"O Emprego", de Domenico Cantoni, é lançado em DVD no Brasil, acompanhado de textos críticos. É um filme sobre o desencanto social, tão bem ilustrado pelas comédias amargas que lhe seguiram
Divulgação
O Emprego

Sandro Panseri como Cantoni: realista com humor discreto

O Emprego
Ermanno Olmi
Instituto Moreira Salles

Passadas as convulsões do pós-Guerra, era hora de respirar o milagre da economia. Muitos naquela Itália acreditaram que o boom lhes traria prosperidade, como o Domenico Cantoni de O Emprego, filme de Ermanno Olmi (1961), que por alguma espécie de outro milagre é lançado no Brasil em DVD, acompanhado de textos críticos. Cantoni sai para trabalhar com um sobretudo em contraponto ao pai, um operário de macacão, que vencera a miséria tão bem ilustrada em Ladrões de Bicicleta duas décadas antes. O emprego no escritório indicará a ascensão da família ao seguro universo pequeno-burguês. Ao chegar à repartição, porém, o jovem Cantoni trabalhará como office-boy, portanto de uniforme ainda, e só deixará o posto com a morte de um escriturário, no dia seguinte ao réveillon cedido com constrangimento usual aos funcionários.

É um filme sobre o desencanto social, tão bem ilustrado pelas comédias amargas a lhe seguirem, Il Sorpasso, de Dino Risi, em 1962, ou Il Boom, de Vittorio de Sica, em 1963. Estranhamente, contra a onda do cinema de autor, o filme de Olmi acresce um tom de humor discreto ao retrato realista. O filme explica que todas as esperanças, dentro de um escritório, são ridículas. Desde aquela de ter a liberdade de ser o que se é, sem que sua privacidade se transforme em prato do dia, até executar bem o próprio trabalho, quando não é essa a principal demanda do negócio, antes uma dedicação de comportamento à causa empresarial. Em uma sequência, entre tantas brilhantes na sua simplicidade, Cantoni ganha um peixe de aquário e liberta-o na pia do banheiro, apenas para que o encarregado de sua seção almeje transpô-lo a seu aquário, metáfora de encarceramento e miséria existencial nos quais todos ali parecem viver sem se importar.