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Número 771,

Sociedade

Desaparecido político

Elzita Santa Cruz, uma resistente

por Marcelo Montanini — publicado 31/10/2013 05h47
Aos 100 anos, a pernambucana ainda busca notícias do filho desaparecido durante a ditadura
Marcelo Montanini
Elzita

A voz é fraca, a memória, não

Um século de vida, metade dedicada à luta pela memória. Elzita Santa Cruz Oliveira ainda espera estar viva para receber notícias, qualquer uma, do filho Fernando Augusto, desaparecido aos 26 anos durante a ditadura. O apartamento à beira-mar de Olinda respira história. Em um dos quartos, medalhas, livros e fotografias antigas tentam manter vivos os fios de lembrança.

Elzita nasceu em Água Preta, interior de Pernambuco, passou a infância em Alagoas e a adolescência em Palmares. Aos 21 anos, casou-se pela primeira vez. Seis meses depois o marido morreu de tuberculose. Cinco anos mais tarde, uniu-se ao médico sanitarista Lincoln Santa Cruz e mudou-se para Olinda. Teve dez filhos, 28 netos e 24 bisnetos.

Lincoln era um humanista, define um dos filhos, vereador de Olinda, Marcelo Santa Cruz. A família costumava receber amigos de todas as classes sociais em casa. Certa vez, o verdureiro Joaquim, amigo, perguntou a Lincoln o que era comunismo. O médico respondeu: “Joaquim, está vendo está mesa? Pense numa mesa maior, com todo mundo comendo a mesma comida juntos”.

Em 1966, dona Zita, 53 anos então, iniciou sua saga por prisões, quartéis e órgãos de repressão à procura dos filhos. Fernando foi o primeiro a ser preso, depois de participar de uma passeata do movimento estudantil no Recife. Menor de idade passou uma semana no Juizado de Menores, até ser solto pela mãe.

Três anos depois, foi a vez de Marcelo. Expulso da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco por sua participação política, acabou proibido de ingressar em qualquer curso superior. Marcelo exilou-se em Portugal, onde se matriculou na Universidade de Lisboa. Ao descobrir, o governo brasileiro exigiu o cancelamento da matrícula e Portugal lhe deu um prazo para deixar o país. Após uma passagem pela Bélgica, o jovem voltaria ao Brasil.

Dois anos depois, a filha mais velha, Rosalina, atuais 70 anos, foi sequestrada por agentes da repressão no Rio de Janeiro em companhia do marido. Rosalina pertencia à organização Vanguarda Armada Revolucionária Palmares. Ao saber do sequestro, dona Zita viajou para o Rio. Após meses de procura, encontrou a filha, que havia abortado na prisão em consequência das torturas. “Comunista não tinha direito a ter filho, me disseram”, lembra Rosalina. Elzita negou-se a assinar um documento elaborado pelos repressores que “atestava” as boas condições físicas e de saúde da filha. Rosalina e o marido seriam soltos um ano depois e se mudariam para São Paulo.

No Carnaval de 1974, Fernando, que também se mudara para São Paulo, foi visitar amigos da Ação Popular Marxista-Leninista e despareceu.  “Ele estava empenhado em encontrar alguns companheiros sumidos, não sabia que seria o próximo”, afirma Rosalina. Estava ao lado do amigo Eduardo Collier Júnior quando caiu em uma provável ação dos órgãos repressores para encontrar Jair Ferreira Sá, conhecido como Dori, e Doralina Rodrigues de Carvalho, a Mariana, dois líderes da organização.

Sem comunicação com o filho ou uma versão oficial, Elzita retornou aos quartéis. No DOI-Codi confirmaram a prisão, mas a proibiram de ver o rebento. Ela deixou objetos pessoais de Fernando, mas a encomenda foi devolvida no dia permitido de visita. Segundo os agentes do DOI-Codi, a informação anterior estava errada: o rapaz não constava da lista de detidos.

A luta pela verdade começava. Dona Zita procurou entidades, políticos e autoridades do regime. Enviou uma carta ao então ministro da Justiça, Armando Falcão, na qual pedia esclarecimento. Falcão não respondeu. Pior: por causa da correspondência, Rosalina, o marido, o filho de 5 meses, seu irmão Marcelo e a empregada da família seriam novamente presos. Rosalina foi torturada por uma semana, enquanto Marcelo, advogado do caso e funcionário de um escritório conhecido, seria solto no mesmo dia, não antes de receber alguns tapas. O episódio não abalou o empenho da mãe: “Nunca pensei em desistir”.

Passado o tempo, Elzita recorreu à Cruz Vermelha, Anistia Internacional e Organização dos Estados Americanos. Sem sucesso. Sua busca inspirou outras famílias Brasil afora e ela tornou-se um símbolo da luta pela memória dos anos de chumbo. Em outubro de 2010, enviou uma carta a Dilma Rousseff, então candidata à Presidência, com críticas ao governo. “A administração Lula deveria ter avançado muito mais na abertura dos arquivos da repressão política e na responsabilização e esclarecimentos dos mortos e desaparecidos políticos.”

Sob Dilma, nasceu a Comissão Nacional da Verdade e proliferaram as comissões estaduais. Elzita ainda espera pelos resultados. E por uma descrição precisa do paradeiro do filho.