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Número 771,

Saúde

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Efeito colateral

por Riad Younes publicado 19/10/2013 09h53
Assim como o benefício para a saúde, o custo do tratamento tem impacto na vida do paciente e deve ser explicado pelo médico
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Impacto. Pacientes abandonam tratamento por causa do preço, sugere estudo

Quando um médico propõe um tratamento para seu paciente, espera-se que discutam, com detalhe, os benefícios de cada componente desse tratamento, seus efeitos colaterais, seus riscos e seus malefícios para o doente. Atualmente, estão ficando mais comuns conversas francas entre médico, familiares e paciente, antes de se decidir cada passo na estratégia terapêutica. Independentemente da doença. Felizmente, a atitude paternalista dos médicos que decidem “o melhor” para o doente, sem explicações, está desaparecendo. No entanto, essa abertura ainda requer um incremento na relação.

Raras vezes, quando um médico prescreve um medicamento, exame ou procedimento, o mesmo deixa claro o malefício que fará ao bolso do paciente. Em outras palavras, os custos reais que sairão do orçamento do doente e de sua família. Talvez um antibiótico mais barato, um pouco menos confortável, mas igualmente eficaz, seria a opção de um paciente, baseando-se em um efeito colateral muito importante: empobrecer as economias da casa.

Essa discussão não se restringe à população de um país com recursos limitados como o Brasil. Na prestigiosa revista médica New England Journal of Medicine desta semana há uma discussão extensa sobre a obrigatoriedade de informar aos pacientes suas opções de tratamento, benefícios, seus efeitos colaterais ou taxas de complicações, além dos custos de cada opção. O doutor Peter Ubel, da Universidade de Duke, em Durham (EUA), autor do artigo, alerta que muitos pacientes ou familiares estão deixando de fazer alguns tratamentos ou de comprar alguns medicamentos devido a seu elevado custo. Muitos outros estão inadimplentes com hospitais ou clínicas.

Na avaliação do estudo, muitos desses pacientes não foram adequadamente informados dos custos potenciais antes de iniciar a terapia. Um exemplo dá conta das possibilidades de descaso. Uma das pacientes ouvidas por Ubel contou ter dito ao seu médico que não tomaria mais certo medicamento após descobrir seu preço na farmácia, ao redor de 500 dólares. O médico simplesmente a informou de que não haveria problema, pois poderia prescrever outro remédio semelhante, bem mais barato. Obviamente, ela ficou chocada.

Para Ubel e sua equipe, faz parte das obrigações de cada médico tratar o paciente sem prejuízos contornáveis. O pesquisador considera antiético o médico não abordar o assunto de custos, havendo ou não opções para o tratamento prescrito. Esses custos deverão entrar na equação de cada caso antes da tomada de decisão final. Pode mudar de forma significativa a escolha de cada indivíduo. E isso se chama consentimento esclarecido ou decisão pós-informada. Não se pode mais dissociar as informações financeiras dos dados referentes à toxicidade ou às taxas de cura. Os médicos precisam se esforçar em oferecer aos pacientes tratamentos de alto valor para suas enfermidades, e não necessariamente de alto custo. Afinal, o dinheiro da sociedade dedicado à medicina é finito. E no Brasil, bastante limitado.

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