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Número 770,

Sociedade

Comportamento

Sexualidade no divã

por Cynara Menezes — publicado 29/10/2013 05h20, última modificação 29/10/2013 10h49
A sexualidade vem dos genes, como quer a ciência, ou da cultura, como diz a psicanálise? Por Cynara Menezes. [Na foto, o modelo sérvio Andrej Peijic]
Flickr / nielleborges
Andrej Peijic

Andrej Peijic, menin, menina e gay

em janeiro de 2011, o DJ norte-americano Paul Vitagliano decidiu lançar na internet o blog Born This Way (Nascido Assim), com fotos de homossexuais quando crianças acompanhadas de depoimentos sobre como eram suas infâncias e a primeira vez que se sentiram atraídos por alguém. O site tornou-se um sucesso, com mais de 4 milhões de visitantes, gerou reportagens em jornais e tevês importantes de vários países do mundo e, em outubro do ano passado, se transformou no livro homônimo, ainda inédito no Brasil.

Os quase 700 relatos do blog trazem histórias engraçadas ou tocantes, mas o que salta aos olhos não é descobrir que aqueles gays e lésbicas de várias partes do mundo, inclusive o próprio Paul, já se interessavam por pessoas do mesmo sexo desde pequeninos, alguns com 4 anos de idade. O que surpreende é constatar que suas confidências não se diferenciam muito do que sentiu uma criança heterossexual na mesma idade, exceto pelo gênero do objeto de desejo. E pela alta dose de sofrimento que vem a seguir, causada por um misto de culpa e vergonha –muito mais intenso, sem dúvida, do que no heterossexual, independentemente da crença religiosa que venha a ter.

Será que, assim como é plenamente aceito que as pessoas nascem heterossexuais, também se nasce gay? A medieval defesa da terapia de cura homossexual por lideranças evangélicas no Brasil e em alguns países tem de certa forma obscurecido a pesquisa científica e psicanalítica na busca de uma resposta a essa questão. De um lado, gays e cientistas, até por uma razão política, abraçam a causa de que a homossexualidade, tanto quanto a heterossexualidade, é nata no ser humano. Do outro, psicanalistas, embora não fechem questão em torno do assunto, dizem que não, que é construída – também tanto quanto a heterossexualidade.

O próprio Vitagliano diz que a intenção do blog não foi provar ao mundo que todas as pessoas nascem gays ou heterossexuais e que isso não possa mudar ao longo dos anos. “Peça para gays explicarem exatamente por que são gays e todos vão dizer que não sabem explicar, só sabem que são”, disse o escritor a CartaCapital. “Pessoalmente, eu soube que era gay aos 4 anos de idade. Tinha clara consciência sobre por quem eu me sentia atraído, e eram meninos. Assim como jovens hétero sabem muito cedo que sentem a mesma coisa por meninas. É exatamente o mesmo processo de descoberta.”

Vitagliano teve a ideia de criar o blog após acompanhar no noticiário seis diferentes histórias de adolescentes que tinham se matado nos Estados Unidos, em setembro de 2010, por sofrerem bullying homofóbico na escola. “Eu quis que o blog pudesse oferecer algum consolo e conexão com os garotos que estão sofrendo bullying e sendo vítimas do ódio, mostrar que eles não estão sozinhos”, diz. Nos últimos anos, descobriu-se que uma das causas da depressão dos garotos gays e que pode levar ao suicídio, além do bullying, são as terapias de conversão a que são submetidos à força pelos familiares.

Enquanto aqui no Brasil o Conselho Federal de Psicologia proíbe a terapia de “cura gay” desde 1999 – é justamente essa resolução que os parlamentares fundamentalistas tentam derrubar no Congresso –, só em maio de 2012 a Organização Mundial da Saúde (OMS) condenou oficialmente a prática, por considerá-la “uma grave ameaça à saúde e ao bem-estar das pessoas afetadas”. Logo em seguida, um dos mais famosos psicanalistas americanos, Robert Spitzer, veio a público se desculpar com a comunidade LGBT do país por ter apoiado a “cura gay” durante mais de dez anos.

“Creio que devo à comunidade gay um pedido de desculpas por meu estudo sobre a eficácia da terapia de reconversão. Peço desculpas a toda pessoa gay que desperdiçou tempo e energia em algum tipo de terapia reparativa porque acreditou que comprovei que essa terapia funciona”, escreveu Spitzer em um pronunciamento oficial. Nos EUA, a terapia de reconversão ainda é permitida em vários estados, inclusive para menores de idade. Em agosto, um tribunal federal manteve a proibição à “cura gay” para menores na Califórnia, decretada pelo governador Jerry Brown no ano passado por se tratar de, em suas palavras, “charlatanismo”.

Psicanalistas e cientistas coincidem que a homossexualidade não pode ser “curada” simplesmente porque não é uma doença. Cientificamente falando, há três linhas principais de “explicação” para a orientação sexual hoje – nenhuma delas, assim como na psicanálise, relacionada ao entorno familiar ou à forma como a pessoa foi criada. A linha genética é apoiada em estudos como a frequência de gays entre gêmeos idênticos; a linha hormonal apoia-se em estudos com irmãos caçulas de famílias apenas com filhos homens e em experimentos com animais, segundo os quais gays podem ter sido expostos, por causas desconhecidas, a taxas anômalas de hormônios durante a gravidez; a terceira linha é a que aponta diferenças na estrutura cerebral de homossexuais e heterossexuais. Nada é, até agora, conclusivo.

Em 2006, o pesquisador canadense Anthony Bogaert apresentou a teoria de que mães com mais filhos homens teriam uma chance maior de gerar um homossexual na figura do mais novo de todos. A hipótese de Bogaert não se baseia, porém, na forma como a mãe os criou ou como os irmãos trataram o caçula, mas em algo pré-natal, porque a mesma prevalência não ocorreria em famílias com muitos homens em que alguns deles sejam adotados ou irmãos só por parte de pai. Ou seja, a razão estaria no útero, porque o aumento na chance de ser gay dos caçulas aparece apenas nos homens cujos irmãos são filhos da mesma mãe, não importando se foram criados juntos ou não. Bogaert não soube explicar qual a razão disso, e a teoria tampouco se confirmou em lésbicas.

Quanto aos gêmeos idênticos, os estudos feitos no início dos anos 1990, embora inconclusivos e bastante questionados, valem tanto para homossexuais masculinos quanto para femininos. A dupla de pesquisadores americanos Michael Bailey e Richard Pillard analisou gêmeos idênticos e fraternos e descobriu que os univitelinos possuíam maior probabilidade de serem, ambos, gays. No entanto, a proporção não se manteve a mesma a depender do país pesquisado. Duas outras pesquisas de 2002 chegaram ao número de 60% de gêmeos idênticos coincidindo na homossexualidade, mas estudos posteriores encontraram valores mais baixos.

O neurologista britânico Simon LeVay, autor do livro Gay, Straight and The Reason Why (Gay, Hetero e Por Quê), descobriu, em 1991, a partir do estudo de cadáveres, que um grupo de células do hipotálamo anterior era duas vezes maior em homens hétero. E que o tamanho dessa estrutura cerebral, nos homens gays, era similar ao encontrado em mulheres. Outro estudo de 2008 do Instituto Karolinska, na Suécia, utilizou a ressonância magnética para analisar os cérebros de 90 pessoas e descobriu que lésbicas e homens heterossexuais compartilham uma “assimetria” particular entre os hemisférios, enquanto mulheres heterossexuais e homens gays não tinham diferença de tamanho entre as duas metades do cérebro.

“Há diferenças entre a estrutura e função cerebrais entre gays e homens hétero, e entre lésbicas e mulheres hétero. Essas diferenças provavelmente acontecem como consequência de fatores hormonais durante a vida pré-natal”, disse LeVay a CartaCapital. “Os genes também são uma influência significativa na orientação sexual de ambos os sexos, mas mais nos homens do que nas mulheres.”

Professor da Universidade de Liége, na Bélgica, e autor do livro Biologie de l’Homosexualité – On naît homosexuel, on ne choisit pas de l’être (Biologia da Homossexualidade – Nasce-se homossexual, não se escolhe ser), o neuroendocrinologista Jacques Balthazart apoiou-se em várias teorias científicas sobre a orientação sexual para defender a tese da homossexualidade nata em sua obra. Como sua primeira formação é em zoologia, Balthazart inclina-se pela explicação hormonal. Baseado em experimentos com animais, incluindo ratos e codornas, o cientista narra que foi possível modificar de forma irreversível a orientação sexual deles ao ministrar testosterona ou estradiol durante a fase embrionária.

Obviamente, é algo que não se pode replicar em humanos, mas, para Balthazart, indica que algo similar pode acontecer entre nós durante a gestação. As razões para que isso ocorra não são claras. “Provavelmente está relacionado a algum tipo de estresse a que a mãe foi submetida”, elucubra o professor belga. Se há essa predisposição nata, pergunto a ele como então se explicaria que tantas pessoas tenham tido ocasionalmente alguma experiência homossexual sem serem exatamente homossexuais ou mesmo bissexuais.

“Motivação sexual é outra coisa. Refiro-me aos homossexuais, ou seja, pessoas que se relacionam apenas com outras do mesmo sexo. Claro que tudo isso é parte da explicação, até porque existem várias homossexualidades”, diz Balthazart. “O ser humano é complexo. A teoria de que se nasce homossexual não exclui que possa haver homossexuais para quem essa orientação é uma escolha deliberada na vida, possivelmente influenciado pelas experiências do passado. Mas uma grande proporção de homossexuais nasce com essa inclinação.”

O pioneiro sexólogo Alfred Kinsey (1894-1956) elaborou, em 1948, uma “escala” de sete pontos para a sexualidade humana: em 0 temos os exclusivamente heterossexuais; 1 os apenas eventualmente homossexuais; 2 os predominantemente heterossexuais, mas frequentemente homossexuais; 3 os bissexuais; 4 os predominantemente homossexuais, mas frequentemente hétero; 5 os apenas eventualmente hétero; 6 os exclusivamente homossexuais; e X os assexuais. A escala Kinsey é criticada atualmente por não ter incluído transgêneros, mas sem dúvida abrange um espectro bastante amplo.

A visão da psicanálise para a questão é igualmente ampla. Sigmund Freud não atribuiu uma origem única para a homossexualidade e considerava uma injustiça “exigir de todos uma idêntica conduta sexual”. Tampouco defendia que a homossexualidade fosse doença, coisa que muitos dos seus colegas fariam mais tarde: somente em 1973 a Associação Norte-Americana de Psiquiatria retiraria a orientação sexual da lista de transtornos mentais. Ainda assim, quatro anos mais tarde, a OMS incluiria a homossexualidade na classificação internacional de doenças mentais, o que só foi revisto em 1990. No Brasil, ser homossexual não é considerado transtorno mental desde 1985.

No recente trabalho O Que as Homossexualidades Têm a Dizer à Psicanálise, o professor da UFMG e da PUC-MG Paulo Roberto Ceccarelli conta que, em 1903, quando a homossexualidade ainda era vista como um problema médico-jurídico, o jornal austríaco Die Zeit pediu a Freud sua opinião sobre um escândalo envolvendo uma importante personalidade acusada de práticas homossexuais. “A homossexualidade não é algo a ser tratado nos tribunais. Tenho a firme convicção de que homossexuais não devem ser tratados como doentes, pois tal orientação não é uma doença”, disse então o pai da psicanálise.

Os textos freudianos, a partir da ideia central de que todos somos originalmente bissexuais, sugerem que a homossexualidade “é uma posição libidinal como qualquer outra”.  Como a maioria dos psicanalistas, Ceccarelli rejeita a ideia da homossexualidade como algo inato. “Quando uma cadela está no cio, todos os machos vão atrás, mas no ser humano não é assim. Nada no ser humano é natural. A pessoa nasce, isso sim, com sexualidade”, diz. “O destino da sexualidade adulta, porém, é uma construção que começa muito cedo, no desejo de quem quis ter aquela criança, no lugar que a pessoa ocupa no desejo de quem quis a criança. Nossa sexualidade também está muito ligada à cultura judaico-cristã. Ninguém está imune a se descobrir um dia numa paixão homossexual, e a recíproca é verdadeira.”

Pergunto, então, como se explicam as diferenças que os cientistas vêm descobrindo entre homo e heterossexuais, e o psicanalista me responde com outras perguntas: “E se essas modificações cerebrais forem também determinadas pela história de vida da pessoa? E se as alterações hormonais forem influenciadas pela história de vida? Essa separação entre o corpo e a mente não existe na psicanálise”.

Talvez o velho Freud é que estivesse mais próximo da solução definitiva para o enigma, ao pregar que a heterossexualidade careceria de tanta explicação quanto a homossexualidade. Como escreveu Ceccarelli em seu artigo: “Não se sabe por que alguém é gay, assim como não se sabe por que alguém é hétero. Nesse sentido, falar do ‘homossexual típico’ é tão absurdo quanto falar do ‘heterossexual típico’, do ‘transexual típico’, do ‘travesti típico’, e assim por diante: não existe nada ‘típico’ na sexualidade humana”.

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