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Número 770,

Internacional

Europa

De nazismo a fascismo

por Gianni Carta publicado 12/10/2013 09h56, última modificação 12/10/2013 13h25
A extrema-direita cresce em vários países, a começar pelo Aurora Dourada na Grécia. Hoje o FN de Marine Le Pen é o maior partido da França
Aris Messinis / AFP
Grécia

Apoiadores do partido Aurora Dourada protestam em Atenas contra a acusação a membros do partido de crime organizado, em 2 de outubro

Nikos Michaloliakos, o líder do partido grego Aurora Dourada, aguarda julgamento atrás das grades. Se provados elos diretos do deputado extremista com a morte do músico Pavlos Fyssas a 18 de setembro em Atenas, o sombrio matemático de 56 anos e mais uma caterva de colegas passarão anos atrás das grades.

Enquanto isso, na quinta-feira 10 a capa do semanário francês Le Nouvel Observateur estampou a foto de Marine Le Pen, líder da legenda de extrema-direita Frente Nacional (FN), com outra espantosa notícia: segundo uma sondagem do Ifop para o semanário, 24% dos franceses votarão na FN nas eleições europeias, em maio de 2014. Portanto, a FN terá mais votos do que as duas maiores legendas francesas, o Partido Socialista e a conservadora União por um Movimento Popular (UMP). Marine Le Pen poderá se tornar a líder do maior partido da França. Nesse caso seria previsível uma nova eleição presidencial semelhante àquela de 21 de abril de 2002, quando o pai de Le Pen, Jean-Marie, disputou o segundo turno contra o conservador Jacques Chirac. Detalhe: Marine Le Pen terá mais chances de levar a melhor nas próximas presidenciais.

No fim de setembro, a coalizão centrista austríaca, formada pelo Partido Social-Democrata (SPO) e o Partido Conservador do Povo (OVP), venceu com seu pior resultado desde a Segunda Guerra Mundial. Motivo: perdeu votos para a extrema-direta, o Partido da Liberdade (FPO). Com 21,4% dos votos, o FPO de Heinz-Christian Strache, de 44 anos, fez campanha contra imigrantes, a islamização da Áustria, e resgates econômicos para países como a Grécia. O OVP obteve 23,8%, ante 27,1% para o SPO, e considera – pasmem – uma coalizão com a extrema-direita.

Na Hungria o partido neonazista Jobbik é antissemita e trava ferrenha luta para expulsar do país os roma, ou ciganos, como alguns ainda preferem ser chamados. Os roma também são perseguidos por grupos de skinheads neonazistas na República Tcheca. No fim de agosto, 62 skinheads armados com tacos de beisebol, facões e canivetes prestes a confrontar ciganos foram detidos na cidade de Ostrava. Em uníssono, gritavam: “Ciganos devem ir para as câmaras de gás”.

Há quem diga que não é somente a crise econômica a provocar reações racistas e xenófobas. “É também uma questão de identidade nacional”, pondera em um café parisiense Antoine Vitkine, autor de Mein Kampf: A história do livro (Nova Fronteira, R$ 48,90). O documentarista Vitkine cita os países nórdicos, onde a crise econômica é menos rigorosa que na Grécia, e mesmo assim movimentos de neonazistas e de extrema-direita ali não escasseiam. “São países, outrora social-democratas, que por conta da globalização estão em plena mutação.”

Um exemplo é o Partido para a Liberdade (PVV), de Geert Wilders, a terceira legenda no pleito de 2010 na Holanda. Wilders propõe o banimento da burca e do Alcorão, que ele compara ao Mein Kampf (1925), manifesto de Hitler. Assim como o PVV holandês, outras agremiações extremistas nórdicas, como o Partido do Progresso na Noruega, o Partido dos Verdadeiros Finlandeses e o Partido Dinamarquês do Povo concordam que seus países têm de se livrar da União Europeia, de imigrantes, dos roma, e cessar a islamização do Velho Continente.

É importante evitar confusões entre partidos claramente neonazistas e aqueles de extrema-direita. Se a Aurora Dourada é neonazista, a Frente Nacional é um partido de extrema-direita, embora tenha abrandado certas posições e, portanto, se tornado mais perigosa, sob a direção de Marine Le Pen. A nova líder não prega mais o antissemitismo. Flerta com a direita e vice-versa. Durante as manifestações contra o casamento gay na França autoridades da direita dita civilizada marcharam em protestos ao lado de Le Pen e seus simpatizantes.

Assim como todas as legendas de extrema-direita, e mesmo à esquerda, Marine se irrita quando chamam a FN de extremista. Alain Delon, adepto da Frente Nacional, em uma entrevista para o diário suíço Le Matin, declarou: “Após anos e anos, pai e filha lutam, mas agora não lutam sós, pela primeira vez, eles não estão sós. Eles têm os franceses ao seu lado. Isso é importante”. Quem vota pela Frente Nacional? Idosos, um em dois operários, e eleitores do presidente socialista François Hollande, segundo a pesquisa do semanário Nouvel Observateur.

Delon e outros seguidores da FN e outras legendas de extrema-direita padecem da nostalgia de um passado por vezes imaginário. Essas agremiações entendem que o povo foi traído pelas elites e pela União Europeia. Nesse contexto, como nas formações neonazistas, existe sempre a valoração étnica de um povo e de tradições (reais ou inventadas) que precisam ser defendidas. Os inimigos? Os imigrantes, como sempre, os roma e aqueles “que islamizam o país”. Nessa perspectiva, a diferença entre partidos de extrema-direita e neonazistas diminui, sem contar o fato de os neonazistas estarem sempre em busca de relíquias como uniformes e armas nazistas, e em antiquários o Mein Kampf (quem quer realmente ler o livro pode obtê-lo de graça em formatos PDF na internet ou e-book na Amazon).

Discursos de líderes de extrema-direita e de neonazistas são parecidos, e podem influenciar audiências. A Noruega, nesse sentido, é um caso clamoroso. Anders Breivik, que em 2011 massacrou 76 conterrâneos por ser contra o multiculturalismo e a islamização de seu país, era filiado ao Partido do Progresso da xenófoba Siv Jensen, a Marine Le Pen norueguesa, que parece estar em vias de forjar uma aliança com o Partido da Direita de Erna Solberg, atualmente no poder.

A extrema-direita diz fazer parte do processo democrático. No entanto, o Aurora Dourada (Chryssi Avgui), na Grécia, crê através de seus hooligans na ação direta ou no extermínio de pessoas.

Antes de assassinar Fyssas com duas tacadas, seis estrangeiros foram mortos, outros desapareceram e 300 pessoas foram agredidas. A inspiração nazista é escancarada. Além da saudação nazista, os simpatizantes colecionam fotografias de Hitler e muitos, obviamente, encaram o Mein Kampf como livro sagrado.

Em uma reportagem publicada em dezembro de 2012, CartaCapital flagrou integrantes da organização, todos vestidos de preto, cabeça raspada, braçadeiras com o símbolo do partido. Entrevistava um cidadão em Agios Pantelemonas, bairro de Atenas onde se encontra a sede principal do partido, quando dois volumosos indivíduos chegaram-se com ares de tempestade e pediram o caderno de anotações deste repórter. Aceitaram o compromisso de verem rasgadas as folhas da conversa. Em outros lugares, vi exigirem documentos a estrangeiros de pele escura. Incrível que essa legenda xenófoba tenha recebido 7% dos votos em junho de 2001 e conte com 18 deputados no Parlamento. Segundo Vitkine, isso se deve em parte à tese pela qual os filiados da legenda são amigos do povo,  cuidam até de lhe oferecer comida, além da proteção. “Isso não passa de pura demagogia”, diz Vitkine.

Por que levou tanto tempo para o governo atuar contra esses fascistas? Segundo o analista político Stan Draenos, o premier Antonis Samaras “não apoiou com devidas ações as denúncias frequentes contra o Aurora Dourada”. No entanto, “partiu para uma série de repressões agressivas e agora há indícios de uma série de novos fatores a cercar o crime”. Refere-se ao assassinato de Fyssas. Autor de uma recente biografia de Andreas Papandreou, Draenos sentencia: foi um crime de motivação política, Fyssas era um rapper antifascista conhecido.