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Número 769,

Economia

Pessimismo exagerado

por Delfim Nettto — publicado 08/10/2013 02h55
Gostemos ou não do que foi dito, é preciso reconhecer que The Economist acerta ao apontar a falta de um entendimento adequado entre o setor privado e o governo
Agência Brasil
dilmainfra

No Brasil, não se consegue o entendimento adequado entre o governo e o setor privado, o que prejudica o desenvolvimento

Passou meio “batida” em nossa mídia uma das notícias mais interessantes dos últimos tempos na economia mundial: a iniciativa revolucionária do (novo) governo chinês de criar na região de Xangai uma zona de livre-comércio. Ali garantirá às empresas o uso da liberdade plena dos instrumentos capitalistas nas formas que julgarem mais adequadas e lucrativas.

Uma experiência fenomenal de competição, em que a moeda, o yuan, será conversível dentro dessa zona, a taxa de juros será livremente estabelecida no mercado, não haverá licença de importação ou controle de exportações, cada qual correndo seus riscos em uma sociedade fechada do ponto de vista político.

A China consegue calibrar melhor a política econômica em meio à crise mundial e aparentemente sustenta uma estratégia de expansão, sem se deixar dominar pelo pessimismo estéril. Nos Estados Unidos a recuperação da economia ainda é lenta e sofre com os sobressaltos produzidos pela má gestão (melhor seria, indigestão) da política fiscal e com a quase suicida exacerbação ideológica em face de qualquer tentativa de inclusão social.

Os países da Eurozona apenas iniciam uma fraca reação, lutam para se livrar do abismo do desemprego e sair do processo recessivo, enquanto na Ásia o Japão se reequilibra com o sucesso inicial da Abenomics. O exemplo de recuperação da China devia ser objeto de meditação, pelo fato de multiplicar iniciativas para usar os instrumentos de mercado de forma adequada à sua estratégia de crescimento.

No Brasil, o pessimismo em queda no noticiário econômico voltou a ser alimentado com a reprodução de reportagem da Economist, que aponta uma perda de dinamismo da economia brasileira. Em 2009, ela tinha exagerado um pouco ao publicar um importante artigo de capa que ajudou a aumentar o nosso prestígio externo, e deu a impressão de que a economia estava em processo de expansão capaz de repetir alguns dos momentos mais significativos da história do desenvolvimento brasileiro. Hoje ela levanta dúvidas sobre a continuidade desse processo, com alguns exageros. Nos dois casos exagerou, mas não inventou nada.

Ora, gostemos ou não, a Economist é a revista econômica semanal mais lida em cento e tantos países do mundo. Foi criada em 1843: são 170 anos que lhe permitem uma arrogância permanente, mas sem lhe tirar a credibilidade. Cometeu erros, passou por dificuldades financeiras e continua o que sempre foi, com o humor e a ironia britânicos, de forma que tem de ser vista como é. E não adianta ficar triste, mas sim prestar atenção ao que é dito. Em certa medida, reflete um pouco o que estamos vendo aqui dentro: um sentimento pessimista muito maior do que a realidade.

Uma reportagem como essa, de 14 páginas, produz um efeito devastador na disposição dos empresários estrangeiros que não têm ligações com o Brasil e por isso não podem separar o exagero da ironia ou fruto do humor. O que me pareceu correto no texto foi a abordagem sobre a filosofia (mais do que a natureza) da política econômica que estamos adotando: ela enxerga uma situação em que não se consegue o entendimento adequado entre o governo e o setor privado, o que prejudica muito o desenvolvimento.

Na mesma semana em que a Economist publicou a matéria sobre o Brasil, a presidenta Dilma Rousseff participava em Nova York de um seminário sobre o desenvolvimento de nossa economia para convidados da Rede Bandeirantes e falava exatamente das diretrizes de política de seu governo e das oportunidades do vasto programa de obras de infraestrutura. No evento, disse aos eventuais investidores: “Eu coloco a estabilidade fiscal como a prioridade número 1 de nossa política econômica”. E mais: “Reconheço que nós precisamos do setor privado não porque ele trará dinheiro para obras de infraestrutura, mas porque sabemos que ele é mais eficiente e pode construir com muito mais rapidez do que o setor público”