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Número 769,

Saúde

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Como manter a mente aguçada

por Rogério Tuma publicado 10/10/2013 03h19
A depressão da aposentadoria pode ser um nefasto convite ao mal de Alzheimer
Flickr / MTSOfan
Alzheimer

Estudo canadense sugere ocupar a cabeça, não importa como

Ao se aposentar, as pessoas precisam manter o interesse em aprender para que seu cérebro não entre em processo de regressão cognitiva. Segundo um novo estudo, manter o bom humor e desempenhar atividades intelectuais é fundamental para atrasar e até evitar a perda de memória na velhice.

Aposentados sofrem modificações importantes em seu estilo de vida, com mudanças sociais, financeiras e culturais. De acordo com sua capacidade adaptativa, essas mudanças podem provocar um declínio progressivo do intelecto, ou atrasá-lo.

O estudo, coordenado pelo doutor Lawrence Baer e colaboradores, da Universidade Concórdia, de Montreal, Canadá, e publicado no Journal of Gerontology, entrevistou por quatro anos consecutivos 333 indivíduos saudáveis aposentados após trabalharem por mais de 20 anos, e comparou dados sobre sua capacidade cognitiva, motivações, tipos de ocupações exercidas após a aposentadoria e presença ou não de depressão.

De acordo com os resultados, indivíduos com maior interesse em exercitar o cérebro e continuar aprendendo ocupavam cargos de maior complexidade antes da aposentadoria. Esses indivíduos procuram, quando se aposentam, um número maior de afazeres, justamente os que demandam mais esforço intelectual. Não por acaso, esses idosos conseguem se proteger do declínio cognitivo, atrasando a perda ligada à idade em pelo menos dois anos. A variedade de atividades é um fator protetor importante e independente do interesse cognitivo. Quem desempenha mais afazeres, mesmo lúdicos, não relacionados ao aprendizado, também está mais protegido da piora cognitiva e pode atrasar tal declínio em pelo menos um ano.

As atividades mais comuns escolhidas pelos aposentados foram leitura, jogos, viagens, educação continuada, ouvir música; as mais criativas como pintura e outras culturais, como visitas a museus e assistir a palestras. As ocupações não intelectuais podem também ser um exercício para o cérebro, pois mesmo nas brincadeiras utilizamos as funções cerebrais que formam a inteligência.

O humor, dizem os autores, é outro fator fundamental na performance intelectual. Ao se aposentar, os indivíduos estão mais sujeitos a desenvolver depressão e seu impacto é maior com a idade avançada. A depressão acomete de 15% a 30% dos idosos e é por si só um fator de risco para o mal de Alzheimer.

Os entrevistados eram relativamente jovens: a faixa etária média era de 60 anos, idade usual para se aposentar no Canadá. Indivíduos jovens com depressão se queixam mais de sintomas físicos e da perda de interesse, mas também de déficit cognitivo. Ficou claro que sintomas depressivos tiveram um impacto negativo nesses adultos jovens, antecipando a perda cognitiva em um ano.

Computando os três fatores, dois de proteção e um negativo, podemos concluir que os indivíduos que logo antes de se aposentar se engajam em atividades cognitivas ou de diversão, e se mantêm interessados, buscando novos conhecimentos e experiências e assim exercitando seu cérebro, sem depressão (ou com a depressão tratada, se a tiverem), conseguem se manter  intelectualmente intactos por pelo menos quatro anos mais que seus pares que optaram por aposentar o cérebro também, ficando sentados no sofá assistindo à televisão o dia todo.

A população brasileira está envelhecendo e a disfunção cognitiva na população idosa torna-se um problema de saúde pública de proporções catastróficas. Uma saída, baseada no estudo mencionado, é oferecer a essa faixa etária oportunidade para o exercício intelectual, a exemplo da entrada gratuita em teatros, cinemas e museus, e um programa de governo para estímulo e aderência à leitura e às atividades físicas para os idosos.

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