Você está aqui: Página Inicial / Revista / Eike desmancha: o que sobra do império X / A internacional capitalista
Número 769,

Cultura

Cinema

A internacional capitalista

por Orlando Margarido — publicado 06/10/2013 08h41, última modificação 06/10/2013 08h46
Em O Capital, Costa-Gavras encena as ambições sob o jogo do mundo financeiro
Divulgação
O Capital

Alcateia. Tourneuil (Gad Elmaleh) integra o corpo que prova o fim das ideologias

Na constatação mais evidente, O Capital, novo filme de Constantin Costa-Gavras que estreia na sexta 4, está estruturado no modelo temático tradicional de poder, dinheiro e mulheres. Em princípio, o protagonista Marc Tourneuil (Gad Elmaleh) gravita entre esses três elementos sem muita certeza, e principalmente destreza, de como lidar com eles. Divide essa dúvida vez ou outra com o espectador, olhando a câmera, ou na voz em off. Esse recurso e o fato de a trama se vincular à dança financeira dos bancos internacionais, cenário do livro adaptado de Stéphane Osmont, conferem, no entanto, outra potência ao drama do que mero retrato de uma ambição individual.

É de Costa-Gavras o olhar que se sabe político, termo por ele mesmo questionado, mas de todo modo voltado ao coletivo, ao que se passa em torno.  Seja esta perspectiva da Igreja sob o nazismo em Amen ou o desespero do desemprego em O Corte. Como tal, a crise bancária e dos mercados não poderia ser apenas documentada, mas deveria também refletir a ética e os valores em um jogo pesado que descarta os mais fracos e impõe o homem da vez, mesmo não sendo o definitivo. Tourneuil é essa figura à mão quando um banqueiro francês se descobre condenado por um câncer e o elege seu substituto, à frente de uma alcateia faminta pelo cargo.

Tem início a roda de traições, revezes e cifras altas que se expandem aos Estados Unidos, sob a pressão de um executivo determinado a um golpe (Gabriel Byrne), e ao Japão, na forma de um banco condenado, na permissiva rede de desdobramentos conhecida.

Não será apenas o desafio de vencer as ameaças pela ganância o ponto mediador das ações do personagem. Também por um lado a sedução de uma bela modelo (Liya Kebebe), a quem não recusa, e por outro as convicções morais firmes da mulher (Natacha Régnier), que com sua leitura muito particular de Mao Tsé-tung impulsiona o marido a uma reforma controversa no banco. Nesse ponto, Gavras nos mostra que as fronteiras deixaram de existir não apenas no mundo das finanças, mas também no das ideologias.

registrado em: