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Número 769,

Cultura

Protagonista

A dama pândega

por Álvaro Machado — publicado 08/10/2013 02h55, última modificação 08/10/2013 11h41
Aos 78, Maria Alice Vergueiro segue fiel à iconoclastia. "Gravaria de novo o Tapa na Pantera”, diz, sobre o vídeo de 2006 no qual brinca com seu hábito de fumar maconha
Jennifer Glass
Maria Alice

Aristocrata anarquista. "Sou uma senhora de Higienópolis, não me habituaria em outro lugar"

Na sala de estar, algo destoa dos títulos que poderia ostentar a moradora quatrocentona, pentaneta do senador Nicolau de Campos Vergueiro, cafeicultor e um dos mais importantes políticos do Império, cujo nome indica ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Acima de um pequeno retrato de seus avós, herdeiros dos barões de Antonina e Ibicuí, a atriz, diretora e pedagoga teatral Maria Alice Vergueiro privilegia em grandes pôsteres a memória dos dramaturgos Samuel Beckett e Bertolt Brecht.

Se a postura corporal e a impostação vocal de grande dama, tão apreciadas nos palcos, podem ser creditadas à educação aristocrática, esta, no entanto, não lhe serviu para proporcionar estabilidade econômica e lhe dar maior conforto em situações como a do último mês, quando, aos 78 anos, submeteu-se a delicada cirurgia cerebral. Com a morte de sua mãe, em 2011, foi suspensa a pensão que também a mantinha e, à exceção de um colar de pérolas relíquia, as joias de família foram vendidas. Ante a hipótese de deixar seu endereço tradicional, a atriz pondera: “Sou uma senhora de Higienópolis, não me habituaria em outro lugar, e ao menos neste prédio me tratam como artista-celebridade”. Sua subsistência e a manutenção da saúde devem-se hoje à atenção dos filhos, bem como do ex-marido, promotor público do qual se separou em 1962 para, em seguida, subir ao palco dirigida por Augusto Boal em A Mandrágora. “Meus queridos me chamavam de irresponsável por eu não ter nem aposentadoria, mas agora resolveram me aturar”, ironiza.

A cirurgia acarretou uma infecção hospitalar, da qual se recupera, mas a potência vocal, que temia perder (já superou câncer de garganta), não foi afetada. Tampouco a contumaz iconoclastia, que lhe tem granjeado admiração da juventude nos últimos anos. “Claro que gravaria de novo o Tapa na Pantera”, diz, sobre o vídeo de 2006 no qual faz piadas com seu hábito de fumar maconha (desde o fim dos anos 1960) e que contabiliza mais de 6,5 milhões de visualizações. À época, Maria Alice detectara a doença e sabia que a erva em seu famoso cachimbo é adotada como terapia científica por liberar dopamina, o neurotransmissor cuja carência está associada ao Parkinson. “Está na moda ser a favor, mas acho bom para uma vida mais liberta. A criminalização da droga não leva a nada, é hipocrisia.”

A popularidade a partir do vídeo deu-lhe dinheiro apenas para levantar a produção da peça As Três Velhas, do chileno Alejandro Jodorowsky, na qual dirigiu e atuou nos últimos três anos em cadeira de rodas (por artrose nos joelhos): “Ele foi sedutor quando leu tarô para mim, disse que me traria fama e dinheiro, só que não veio nos assistir”. Se não conseguiu se pagar, por problemas burocráticos com as leis de incentivo, a montagem rendeu-lhe troféus, como o de “Personalidade de 2012”, oferecido pela SP Escola de Teatro, que neste ano a convidou para dar aulas.

Na escola mantida
com verbas estaduais Maria Alice aplica o “catecismo” anarquista e semiapócrifo Baderna TAZ – Zona Autônoma Temporária e à turma de 25 alunos propõe a colaboração interativa. “Também compareço a reuniões da classe teatral sobre o atual momento, porque ainda acredito no ser humano e gostaria de assistir a uma real mudança política.” Entre seus pares, a atriz é lembrada como “a velha dama indigna” – a peça de Brecht sobre uma idosa que abraça prazeres, por ela interpretada em 1988.

Diretor da SP Escola desde a fundação, em 2010, o ator Ivam Cabral frisa que a atriz é pedagoga de formação. Foi a criadora da cadeira de Pedagogia Teatral na Escola de Comunicações e Artes da USP, nos anos 1960, e antes lecionou a disciplina na Escola de Aplicação da mesma universidade. “Não concebo que uma profissional com esse histórico chegue aos 80 anos abandonada e sem poder produzir seus projetos, em parte por não estar na mídia televisiva. As secretarias de Cultura e o Sesc precisam se responsabilizar por figuras como ela”, diz Cabral.

O “histórico” implica colaborações com momentos-chave do teatro brasileiro: em 1971 participou de O Rei da Vela, entre outras produções antológicas do Tea­tro Oficina, e em 1977 criou o Teatro do Ornitorrinco, com os teatrólogos Luiz Roberto Galizia e Cacá Rosset, quando também ganhou o Prêmio Molière (por A Mais Forte, de Strindberg). “Foi a professora da Escola de Arte Dramática da USP Maria José de Carvalho quem ‘cravou’, quando frequentei seu curso de dicção: ‘Você é uma atriz!’”, lembra Maria Alice.

As fortes personalidades das duas foram reunidas no teatro apenas uma vez, em cerimônia de inauguração do Instituto Cultural Itaú, em1992, quando o banqueiro e ex-prefeito Olavo ­Setubal ouviu-as dizer demolidores versos de Juó Bananère. Situação só comparável a uma apresentação do Ornitorrinco de músicas de Kurt Weill no elitista Clube Paulistano, na década de 1980, quando a atriz viu parte da plateia desabalar para fora do salão, após ela recitar versos brechtianos de morte à burguesia.

Para cumprir “a meta de viver para ver a Copa de 2014”, espera finalizar, com a escola teatral, um espetá­culo que ­conjuga as peças Fando e Lis, de Arrabal, e Fim de Jogo, de Beckett, ambas com personagens centrais em cadeiras de rodas, que ela talvez interprete: “É um projeto ousado, o primeiro no formato ‘residente’ da escola, e no qual aplico o método Pândega, que adaptei do Teatro Pânico de Arrabal. Em julho apresentamos a primeira parte do processo e em breve revelaremos outras duas etapas, antes de subir aos palcos”.