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Número 768,

Internacional

China

O fim do príncipe vermelho

por Wálter Maierovitch publicado 03/10/2013 03h15, última modificação 03/10/2013 18h49
Condenado por corrupção, Bo Xilai pode recorrer da sentença, mas já sofre com a pena de morte na política
Reprodução CNN
bo xilai

Do processo, consta ter Bo Xilai embolsado, de 1993 a 2007, exatos 20,44 milhões de yuans, o equivalente a cerca de 3 milhões de euros.

Para os chineses, Bo Xilai, de 64 anos, protagonizou o julgamento do século e, em importância e repercussão, só teria sido suplantado pelo da chamada “camarilha dos quatro”. No processo da “camarilha”, o destaque ficara com Jiang Qing, a viúva de Mao Tsé-tung. Condenada, em 1980, à pena morte, ela teve a sentença substituída pela de prisão perpétua.

Em 15 de março de 2012, Bo Xilai foi afastado da secretaria do Partido Comunista Chinês de Chongqing, província com 30 milhões de almas, pela acusação de corrupção, peculato e abuso de poder. Ele era considerado nome certo para, em março de 2013, e por ocasião do 18º congresso de renovação da classe dirigente, integrar o órgão de cúpula governamental, composto de sete membros. Considerado um dos “príncipes vermelhos”, designativo reservado aos filhos dos heróis da revolução maoista, Bo Xilai era um inconteste líder na região oriental e passara por cargos e funções de relevo. Foi prefeito de Dalian, governador da província de Liaoning, secretário regional do Partido Comunista e ministro do Comércio e dos Transportes.

Conforme registrado no famoso e geo-político Calendário Atlante, escândalos a envolver personalidades da vida política chinesa têm quase sempre ligação com embates intestinos de luta pelo poder. Para ingressar no órgão que reúne a cúpula de mando, Bo Xilai tinha o apoio do antigo presidente Jiang Zemin. Não contava, porém, com as graças do então presidente Hu Jintao e do premier Wen Jiabao, que deixaram os cargos em 14 de março de 2013. A propósito, o novo presidente chinês, Xi Jinping, teve a bênção de Hu Jintao.

O sistema de Justiça chinês está fundado no costume e em leis. A pena de morte é prevista para vários crimes. A China, segundo as Nações Unidas, é recordista em execução pública, e se negou a aderir ao pacto da ONU de moratória à pena capital.
O julgamento de Bo Xilai não recebeu autorização para ser transmitido pela televisão. No entanto, as pessoas ficaram atentas ao Sina Weibo, o Twiter chinês. E o governo central autorizou a difusão de resumos do acontecido no tribunal e na presença de 116 pessoas selecionadas previamente. Apenas 22 jornalistas chineses, nenhum internacional, puderam presenciar o julgamento. Tudo isso durou cinco dias.     

Na sessão de instrução e julgamento, para surpresa geral, quebrou-se uma tradição. A da confissão teatral e do viso de arrependimento. Bo Xilai não admitiu sua culpa. Mais ainda, ele, que na fase pré-processual havia assinado uma confissão, retratou-se e disse que o escrito era um hábito usado para dar satisfação ao Partido Comunista e voltado para o perdão e a manutenção das funções públicas.


Visto como mandachuva em Chongqing, ele dedicou-se a um projeto de retorno ao maoismo e de combate ao que chamava da “máfia da corrupção”. Para as ações repressivas, Bo Xilai escalava o chefe de polícia Wang Lijun, homem de confiança e considerado um seu “braço direito”. O dirigente só não esperava uma traição. Ou melhor, a fuga de Wang Lijun, em fevereiro de 2012, para a sede do consulado americano, em Chengdu. Lá, Wang contou ter Gu Kailai, esposa de Bo Xilai, envenenado o businessman britânico Neil Heywood, um intermediário em esquemas fraudulentos. Destacou Wang que o casal era corrupto e que Bo Xilai o pressionava para encobrir o crime e confirmar a morte do britânico em face de infarto.

Gu Kailai, pelo homicídio, recebeu a pena capital, substituída por prisão perpétua. No julgamento do marido, testemunhou contra ele e confirmou que as despesas, como a compra de uma casa na França e os gastos com o filho no exterior, eram pagas com dinheiro obtido ilegalmente.

Do processo, consta ter Bo Xilai embolsado, de 1993 a 2007, exatos 20,44 milhões de yuans, o equivalente a cerca de 3 milhões de euros. Na sua defesa, o réu disse que a esposa era uma anlian, que significa mulher dedicada a amores proibidos. Seu amante seria o superpolicial Wang. O réu destacou ainda que, diante do volume de dinheiro que circulava quando no comando de elevadas funções públicas, o valor de 20,44 milhões de yuans era ridículo e que nunca se corrompeu.

Como testemunha de acusação foi ouvido o empresário Tang  Xiaolin, um dos que teriam corrompido Bo Xilai. Na sessão do tribunal, o réu protestou em face do depoimento da esposa, qualificada como “maluca” e “drogada”. Quanto à testemunha, emitiu juízo de valor ao frisar tratar-se de um “embrulhão” capaz de vender a alma.

A sentença condenatória, lida pelo juiz Wang  Xuguang, determinou a remoção do condenado à prisão de Qincheng, em Pequim. Bo Xilai poderá apelar da sentença. Na verdade, esse “príncipe vermelho” não vai amargar só as sanções judiciais. O mais pesado será a pena de morte política.

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