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Número 768,

Cultura

Blogs do Além / Hannah Arendt

Meu bem, meu mal

por Vitor Knijnik — publicado 01/10/2013 10h03, última modificação 01/10/2013 10h08
O termo que apresentarei neste post é fruto de minha observação das redes sociais, da imprensa e até de minhas idas ao supermercado. Tenho notado que a expressão “do bem” se popularizou...
Flickr / Ben Northern
Hannah Arendt

Sobre mim: Teórica e política alemã, uma das pensadoras mais importantes do século XX. Mas entrei mesmo para a história por uma banalidade

Quando pedi ao editor da revista New Yorker a oportunidade de cobrir o julgamento, em Jerusalém, de Adolf Eichmann, tenente-coronel da SS, responsável pela logística de extermínio de milhões de pessoas durante o Holocausto, eu não imaginava que iria me tornar tão impopular. Ao acompanhar o andamento daquela Corte, concluí e publiquei um artigo, que mais tarde se tornou um livro, que o réu não era o diabo que se pintava. Eichmann não era o Coringa, o Lex Luthor ou um mensaleiro, mas sim alguém terrível e horrivelmente normal. Eichmann não passava de um burocrata que seguia ordens com rigor germânico e incapaz de distinguir o bem do mal. Você pode imaginar que nunca mais tive companhia para o Shabat.

Baseado nessa conclusão, cunhei a expressão “banalidade do mal”, que indica que algumas pessoas podem cometer atrocidades apenas cumprindo as regras do sistema ao qual pertencem. Para esses indivíduos, torturas, execuções ou a prática do mal não são racionalizadas nem suas consequências são medidas. Basta que as ordens para executar as barbaridades venham de instâncias superiores. “Estou apenas cumprindo ordens” é uma das frases mais vis que o ser humano pode dizer. Isso e “não é você, o problema sou eu”.

Pois muito bem, fiz esse microrresumo sobre a origem do termo “banalidade do mal” apenas para avisar que gerarei uma nova onda de impopularidade. O termo que apresentarei neste post é fruto de minha observação das redes sociais, da imprensa, das conversas com amigos e desconhecidos nas ruas e até de minhas idas ao supermercado. Desta vez não vou me basear em nenhum julgamento. Até porque de alguém impopular, com sobrenome judeu, num julgamento, já basta o Lewandowski.

Tenho notado que a expressão “do bem” se popularizou. Muita gente, para elogiar, diz que “fulano é do bem” sem mesmo avaliar a ficha corrida da pessoa em questão. No Facebook, por exemplo, há uma infinidade de páginas e perfis relativos a “do bem”: Indiretas do Bem, Mensageiros do Bem, Correntes do Bem, Caravanas do Bem, Dicas do Bem, Cantinhos do Bem, Portal do Bem. Há Atores do Bem, como o Affleck, o Stiller e o Kingsley. E até uma marca de bebidas que se chama Do Bem. Fico pensando o que seria o Suco do Mal. Algo com sabor de enxofre? Muito açúcar, glúten, lactose e gordura trans? Ou o sujeito bebe um copo e torna-se capaz de assassinar a família inteira com tiros perfeitos antes de se suicidar?

Portanto, é nítido que estamos diante de uma “banalização do bem”. Assim como Eichmann não era aquele vilão todo, esse bem que tanto se propaga por aí não é tão bem assim. Com tantos benfeitores por aí, como vamos identificar os perigosos normais e terríveis? Desculpe aparecer novamente só para provocar esse desconforto. Eu apenas estou seguindo as ordens da minha consciência.

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