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Número 766,

Sociedade

Futebol

A partida sem fim de Washington

por René Ruschel — publicado 17/09/2013 10h25, última modificação 17/09/2013 15h43
O ídolo do Fluminense nos anos 80 luta contra uma esclerose amiotrófica
Nelson Perez / Fluminense F.C.
Washington

Sereno. "Tive muito mais do que sempre sonhei. Valeu a pena", diz o ex-atacante.

No pacato bairro de Capão da Imbuia, em Curitiba, Washington passa seus longos dias em uma cama diante da televisão e entre dois botijões de oxigênio, respiradouro artificial, fisioterapeutas, enfermeiros e uma parafernália de instrumentos médicos disponíveis 24 horas por dia. No leito esparrama-se a sombra do sorridente gigante de 1,90 metro, baianidade à flor da pele, que fez história no ataque do Fluminense.

Washington formou a dupla mais famosa do futebol brasileiro em meados dos anos 80. Ao lado do meia Assis compunha o “Casal 20”, motor da então inédita conquista do Flu do Campeonato Nacional de 1984 e do tri carioca em 83, 84 e 85. Depois de eliminar o Corinthians de Sócrates nas semifinais, o Fluminense enfrentou o Vasco em duas partidas tensas e truncadas. O centroavante passou em branco. No primeiro jogo, Flu 1 a 0, gol de Romerito. No segundo, um suficiente 0 a 0.

O atacante teve uma trajetória incomum no futebol profissional. Não fecundou nas divisões de base como a maioria. Depois de deixar Valença, cidade natal, estreou em 1980, aos 20 anos, no Galícia. Logo chamou a atenção de um mito, Aymoré Moreira, treinador do Brasil no bicampeonato mundial de 1962. Ao vê-lo jogar, Moreira decretou: tratava-se de um craque destinado a brilhar nos gramados. No ano seguinte, o Corinthians foi buscar a “promessa” na Bahia, mas o atacante não se firmou e foi vendido ao Internacional de Porto Alegre, onde conheceu o parceiro Assis. Nos anos seguintes, os dois seriam tratados (e negociados) como se formassem um corpo único: cérebro e alma, cadência e explosão. Em 1982, o Casal 20 seria negociado com o Atlético Paranaense. O Furacão não se arrependeria. A dupla comandaria a equipe na campanha pelo título estadual após dez anos de jejum. Washington, 23 gols, seria o artilheiro da competição. No ano seguinte, o baiano realizaria um sonho antigo e o Maracanã, que ainda abrigava mais de 100 mil torcedores nos clássicos, tornou-se seu palco principal.

Os títulos e os gols o levaram à Seleção. Em dez partidas entre 1987 e 1989, balançou a rede oito vezes. Apesar da boa média, acabou excluído (sorte dele) do time que, sob o comando de Sebastião Lazaroni, foi um fiasco na Copa de 1990 na Itália. Por quê?  “O Lazaroni preferiu levar o Careca, jogador do Napoli, e o Romário, do PSV. Sem dúvida, eles viviam um momento maravilhoso.”

No fim da década de 80, o Fluminense resolveu reestruturar a equipe. Washington foi o último do grupo a ser vendido. Jogou no Guarani de Campinas, no Botafogo (campeão carioca em 1990), defendeu vários times em Portugal e integrou equipes menores no Brasil. Em 1996, encerrou a carreira.

A vida comum em Curitiba, entre uma pelada com amigos no fim de semana e uma cervejinha, seria interrompida dez anos depois.Em 2006, enquanto corria em uma praça próxima à sua casa, sentiu pela primeira vez uma leve dor na cintura. Culpou o “tênis baixo” e não apropriado. Trocou de calçado, mas o incômodo não sumiu. Parou de correr. Começou a pedalar, depois a só caminhar. A dor ficava, porém, cada vez mais aguda. Iniciou a peregrinação por médicos e hospitais. Em 2009, o diagnóstico: esclerose lateral amiotrófica, uma degeneração do neurônio motor do tronco cerebral e da medula espinhal. “Entrei em depressão até saber da doença. Os médicos não conseguiam determinar o que eu tinha e me via cada dia pior. Para quem viveu para o esporte com muita disposição e saúde, não é fácil ver o corpo definhar.”

Hoje, a cama é o zagueiro que imobiliza Washington. A porta da rua, as traves inalcançáveis. Uma vez por mês o centroavante é levado de ambulância a um hospital de Curitiba para avaliação. A respiração é artificial e a fala ofegante e pausada sai com enorme dificuldade. O rosto barbeado e o bigode estilo mexicano permanecem. É a marca do craque. Pergunto qual a sensação de fazer um gol. Washington não se contém. Derrama lágrimas. “Corria para a geral, onde ficava a torcida do Fluminense. Simplesmente inexplicável.”

Além de alguns amigos, o ex-jogador comunica-se com o mundo pelo Facebook. Milhares de torcedores e fãs enviam mensagens de apoio e esperança. Washington diz viver em paz. “Tenho fé em Deus. Ele me levou até onde cheguei e agora me trouxe até aqui.” O patrimônio financeiro acumulado no futebol é suficiente para levar a vida. A principal despesa, o plano de saúde, é custeada pelo Atlético Paranaense.

Sente não poder carregar os sete netos no colo. E reflete sobre a vida. “Na condição em que me encontro não posso ser feliz. Mas sou plenamente realizado. Tive muito mais do que sempre sonhei. O futebol só me deu alegria. Valeu a pena.”

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