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Número 765,

Economia

Automóveis

Gênios e idiotas

por Thomaz Wood Jr. publicado 12/09/2013 08h46
Executivo-celebridade relata em autobiografia sua convivência de quase cinco décadas com figuras de proa do setor automobilístico
Divulgação
bob lutz

Bob Lutz e a convivência marcante com personagens da indústria automobilística

Bob lutz nunca chegou ao topo de uma grande montadora de automóveis. Entretanto, por meio século foi executivo importante nessa indústria que marcou o século XX e, menos glamourosa e mais criticada, continua marcando o século XXI. Lutz nasceu na Suíça, fez MBA em Berkeley, foi piloto de caça dos marines e vendeu aspiradores de pó para sustentar a família. Iniciou sua carreira na General Motors. Passou pela Opel, BMW, Ford e Chrysler, e retornou à General Motors, nem sempre fazendo amigos. Seu hobby é colecionar carros clássicos, aviões de caça e motocicletas. Coisa de menino!

Seu último livro, Icons and Idiots: Straight talk on leadership (Portfolio), é um relato autobiográfico de sua convivência com personagens marcantes da indústria automobilística. O autor conviveu com seus pares no olimpo corporativo em tempos de bonança e crise. Liderou processos importantes de desenvolvimento de novas linhas de produto e chegou perto de ser nomeado o número 1, mas foi preterido.

Em entrevista concedida à revista Esquire, Lutz resume seu ponto de vista: qualquer indivíduo criativo e empreendedor comete erros. Brilhantismo e idiotismo não são sempre fáceis de separar. Então, é aconselhável estar sempre alerta e prestar muita atenção na reação da plateia.

Seus personagens, que dão título aos capítulos, compõem uma galeria curiosa de maníacos prodigiosos, manipuladores sem clemência, celebridades inseguras e tiranos destemperados. Um de seus chefes na General Motors é descrito como racista, homofóbico e estúpido, porém claro nas decisões e objetivo na comunicação. Que bom! Outro chefe, com alto posto de comando na mesma empresa, tinha como maior qualidade a total incapacidade para atrapalhar seus liderados. Em suma: era uma nulidade. Tipos similares foram encontrados nas passagens pelas empresas concorrentes. Um executivo da Ford era tão obsessivo com a redução de custos que conteve investimentos para reduzir problemas em uma linha de produtos, apostando que aqueles só surgiriam depois do fim da garantia, deixando assim o abacaxi para o consumidor. Esperto!

Também não faltam ao livro fofocas, registros de vícios e esquisitices de figurões, como um presidente da Ford que mantinha um álbum com fotos de figuras ilustres sob o título “pessoas importantes que me conheceram” (humilde!) e um alto executivo da General Motors na Europa que era constantemente resgatado ébrio de seu bar preferido em Frankfurt e levado para casa. Provavelmente bebia para tornar os outros mais interessantes.

Lutz, como é praxe no mundo corporativo, venera realizadores, mesmo aqueles de caráter duvidoso. Um chefão da BMW, maquiavélico e sempre disposto a se apropriar das ideias de seus subordinados, tem seus pecados delatados, porém é também elogiado por ter transformado a empresa alemã em uma marca global. Burocratas e tecnocratas, amantes de métodos e planilhas, por outro lado, parecem ganhar apenas o reconhecimento contrariado do autor. Se não pode ser medido, não existe: é o moto da tribo. Bobagem, para Lutz, que parece preferir a intuição. Ainda assim, ele reconhece a importância de acompanhar metas e orçamentos.

Lições aprendidas? Primeiro: pessoas são complicadas. Nenhuma novidade! Segundo: pessoas trabalhando em cargos importantes em grandes empresas são ainda mais complicadas. Sem dúvida! Terceiro, se você tem de lidar com pessoas complicadas e poderosas, ignore as esquisitices e tente ver o lado bom. Boa sorte! Quarto, se você é a pessoa complicada, cuidado para não se comprometer mostrando suas esquisitices na hora errada ou para a plateia errada. De novo, boa sorte!
O leitor de Icons and Idiots quiçá conclua ao final do livro que o estado sofrível das gigantes empresas norte-americanas no fim dos anos 2000 não foi obra somente da concorrência internacional ou da situação econômica adversa. Foi, principalmente, fruto da ação incompetente de seus próprios gestores. Os grandes líderes corporativos também têm pés de barro. Mais assustador talvez seja constatar que muitas empresas atuais, ao Norte e ao Sul, sofrem com tipos similares. E nem sempre os idiotas de plantão têm as qualidades daqueles descritos por Lutz.

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