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Número 764,

Política

Editorial

Dois amigos

por Mino Carta publicado 30/08/2013 08h07, última modificação 30/08/2013 08h15
Fundadores da Editora Confiança desprovidos de qualquer vocação empresarial. Felizmente houve intervenções providenciais
fundadores CC

Belluzzo e eu: atrevidos pés-rapados

Dois leitores fiéis somente agora se deram conta de que CartaCapital é publicação de uma editora chamada Confiança, citada no meu editorial da semana passada. Talvez haja outros, e eu não perco a oportunidade de desenrolar este enredo, protagonizado por dois velhos e fraternos amigos que atendem pelos nomes de Luiz Gonzaga Belluzzo e Mino Carta, irremediáveis pés-rapados desprovidos da mais tênue vocação empresarial.

A amizade é antiga, de 45 anos. Eu dirigia Veja e Belluzzo integrava a equipe de consultoria econômica da revista, comandada por Eduardo Kugelmas, a contar também com a participação de João Manuel Cardoso de Mello. Dias épicos, ou, se quiserem, atribulados. Grassava a ditadura, vivemos várias apreensões em banca e finalmente uma duríssima censura, que terminou somente com minha saída de Veja.

A amizade se renovou e se fortaleceu com o lançamento da Senhor semanal, à sombra da Editora Três de Domingo Alzugaray. Dela Belluzzo foi colaborador mais próximo e assíduo, juntamente com outro meu amigo fraterno, Raymundo Faoro. De Senhor a IstoÉ, segunda fase a partir de 1988, o passo foi anunciado e lógico. Quando deixei IstoÉ, cinco anos depois, Belluzzo e Faoro me acompanharam com a naturalidade das parcerias inquebráveis, assim como se deu com Bob Fernandes, Mauricio Dias e Nelson Letaif. Nirlando Beirão, arguto farejador de tempestades, já partira um mês antes.

Belluzzo, Faoro e eu voltamos a trabalhar juntos em CartaCapital desde a estreia, eu como diretor de redação, eles no papel tradicional de colaboradores conselheiros. Preciosos e indispensáveis. Todos como empregados da Carta Editorial, a editora fundada por meu irmão Luis em 1976, àquela altura comandada pelo meu sobrinho Andrea. Quando, no primeiro semestre de 2001, começamos a cogitar da transformação da revista de quinzenal em semanal, nasceu a Confiança.

Belluzzo e eu partimos como sócios da aventura movidos por uma espécie de senso de dever, embora despreparados para a tarefa inédita, tão distante dos nossos pendores e humores. Era inevitável enfrentá-la, porém, ao sabor de uma publicação fadada a navegar contracorrente, e de forma tão peremptória. Dias épicos, se quiserem, atribulados, por razões bem diferentes daquelas que marcaram Veja.

Antes de mais nada, cabia lidar com a contrariedade do poder: logo sofremos o desprezo, quando não a perseguição, do governo de Fernando Henrique. Depois, com a deslealdade dos porta-vozes da casa-grande, os ditos colegas, ignaros das responsabilidades do jornalismo. E ainda com a nossa pobreza a exigir economias brutais e a impedir quaisquer gastos em autopromoção, venda capilar de assinaturas e distribuição mirada. Finalmente, com nossos próprios limites como neófitos de uma missão de verdade impossível.

Como escrevi há uma semana, os fados, certamente gregos, não falharam, responsáveis pela nossa sobrevivência e pela intervenção espaçada de forças empenhadas a favor dos aventurosos inglórios, capazes de exibir apenas uma amizade indestrutível embora cercados pela ameaça da ruína iminente. O fim do reacionarismo tucano, com a vitória de Lula em 2002, veio a calhar, e mais recentemente a entrada em cena de Eduardo da Rocha Azevedo. O mesmo que 28 anos atrás a Senhor celebrava como “O Meteórico Coxa”, hoje sócio da Confiança.

Eduardo trouxe conhecimento, tino. E lá vamos nós, confiantes. Quanto a Belluzzo, especificamente, ele é personagem dos meus livros, onde o descrevo como mandam a mente e o coração. No meu último romance-memória é ele mesmo, sem metáforas. Nos outros, é o professor Verdone, do verde palmeirense, a vestir sua irredutível fé itálico-marxista-keynesiana.