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Número 763,

Cultura

Memória

O som e o dom

por Rosane Pavam publicado 25/08/2013 09h16, última modificação 25/08/2013 09h19
O escritor norte-americano Elmore Leonard, autor de 45 ficções de diálogos precisos e bem-humorados, manteve ouvidos atentos à linguagem das ruas. Por Rosane Pavam
AFP
Elmore Leonard

Palavras sonoras. "Se soa como coisa escrita, eu reescrevo"

As notícias sobre a melhora de sua saúde desde o derrame cerebral sofrido em julho foram exageradas, e o norte-americano Elmore Leonard, autor de 45 ficções de diálogos precisos e bem-humorados, morreu em Detroit um mês depois, dia 20, aos 87 anos, enquanto escrevia um novo romance. Era um artista da contrariedade e da surpresa, tão hábil em reconstruir fala, gíria e patuás dos americanos que Hollywood ansiou por ele, promovendo filmes bem-sucedidos a partir de seus thrillers, como Jackie Brown (1997), por Quentin Tarantino, ou O Nome do Jogo (1995), por Barry Sonnenfeld.

“Eu entendo estilo como som, o som da escrita”, dizia Leonard, ouvidos atentos às conversas de rua. “Sempre escrevo a partir do ponto de vista de um personagem.” Mas a dúvida persistia entre seus admiradores. Como ser Leonard e enriquecer em dez lições? Farto de ser indagado sobre seu segredo literário, algo que ninguém, de todo modo, jamais questionara ao simplesmente talentoso Marcel Proust, ele um dia desenterrou para os leitores o Graal das dicas. “Se soa como coisa escrita, eu reescrevo”, disse, para em seguida redigir seus mandamentos: “Não comece seu livro com descrições sobre o clima”, “Evite prólogos”, “Controle o uso dos pontos de exclamação!”, “Nunca use outro verbo a não ser ‘disse’ para conduzir o diálogo” e, principalmente, “Nunca use um advérbio para modificar o verbo ‘disse’”. Com o tempo, para ganhar um extra em palestras, readaptou os ensinamentos, assegurando que não se importaria de matar um advérbio se o visse pela frente.

Detestava pesquisar, embora seus livros encenassem momentos da história e se inspirassem em personagens reais. O historiador Gregg Sutter apareceu em 1992 para lhe trazer documentos e entrevistas. Assistente até a morte de Leonard, deu-lhe munição para reviravoltas que revolucionaram o entendimento da ação nas ficções americanas. Uma vez, ao entrevistar um recordista em fugas, Sutter descobriu que um fugitivo não corre. “Estamos assustados demais”, ensinou-lhe o preso. “Para se mover é preciso domar o terror. E fazemos isso andando calmamente até a cerca. Quando alcançamos o mato, aleluia, é um sentimento maravilhoso.”