Você está aqui: Página Inicial / Revista / Síria / Felizes aos dezenove
Número 763,

Estilo

Editorial

Felizes aos dezenove

por Mino Carta publicado 23/08/2013 08h14
CartaCapital faz aniversário de consciência e alma em paz
Arte: Ricardo Rossetto
dezenove anos CC

Em dezenove anos: capa de estreia, a primeira capa quinzenal, a da semanal e uma recente, depois da reforma gráfica

Tive muita sorte na vida profissional, sempre reconheci. Estava no lugar certo na hora certa e desde os 26 anos fui diretor de redação de publicações que não existiam antes de mim. Como tal, passei pouco mais de 4 anos na Quatro Rodas, menos de 4 no Estadão para dirigir antes a Edição de Esportes, depois o Jornal da Tarde. Oito anos em Veja, 10 na IstoÉ, 6 na Senhor, 4 meses e 20 dias no Jornal da República.


Tirante o Jornal da República, fracasso esculpido por Michelangelo em dia de grande inspiração por causa dos meus lamentáveis erros de cálculo, as demais oportunidades propiciadas pelos fados, certamente gregos, tiveram êxito, inclusive a Quatro Rodas entregue a este que escreve, incapaz não somente de guiar veículos automotores, mas também de distinguir um Volks de uma Mercedes, tanto mais uma biela de uma bronzina. E o torque, então? Por isso, os fados só podem ser gregos.

Depois de minha saída da Veja, adquirida a fama de anarcossindicalista irredutível, infenso a ordens e interesses patronais, tive de inventar meus empregos. O derradeiro é aquele em que mais durei e ainda mais pretendo durar a despeito da proximidade dos meus 80 anos. Eis aí, CartaCapital, que nestes dias completa 19 desde a sua primeira edição.


O pequeno bang, mínimo, mas tão importante para os envolvidos, deu-se em um dia de junho de 1994, quando um grupelho de amigos reuniu-se para cogitar de uma nova publicação, enquanto os indispensáveis Mauricio Dias e Jorge Duque Estrada associavam-se de longe a Bob Fernandes, Nelson Letaif, Wagner Carelli e eu. Vínhamos todos de variadas parcerias e imaginamos uma revista sobre o poder onde quer que se manifeste, na política, na economia e na cultura. Capaz de respeitar a verdade factual até as últimas consequências e a praticar o espírito crítico. Desabridamente. Honesta e independente até a medula.


Saímos em agosto de 1994 com periodicidade mensal, à sombra da Carta Editorial, a editora fundada por meu irmão Luis em 1976 e então comandada pelo filho Andrea, refinado e corajoso. O propósito era ambicioso e, a caminho da semanal que nasceria em 2001 como produto de uma nova editora, a Confiança, a revista tornou-se quinzenal em março de 1996. Ao longo desse caminho até a semanal, CartaCapital perdeu algumas peças e ganhou outras. Nelson e Wagner partiram para novas empreitadas, Bob Fernandes entregou o posto de redator-chefe a Mauricio Stycer e este, em 2008, a Sergio Lirio, hoje meu perfeito braço direito, como se diz. A equipe redacional fortaleceu-se, aconteceram diversas reformas gráficas, a última é deste ano, leva o carimbo da Mariana Ochs e a brilhante aplicação criativa de Pilar Velloso.

Das costelas de CartaCapital nasceram Carta na Escola e Carta Fundamental, sob a batuta competente de Lívia Perozim. A Editora Confiança cresceu, ganhou um novo sócio, Eduardo da Rocha Azevedo, amigo de antiga data, representado no dia a dia pelo gerente-geral Luis Morais, para secundar o infatigável, vitorioso esforço da publisher Manuela Carta. Enredo complexo e caudaloso, do qual participei por um tempo muito mais demorado do que aquele vivido em qualquer outra publicação.


Não é questão de tempo, entretanto, tempo este que, aliás, na minha sensação, não passa de invenção do homem e, portanto, não existe. Considero CartaCapital o melhor estágio da minha vida profissional, sem deixar de sublinhar, pela enésima vez, que jornalismo é trabalho de equipe. CartaCapital conta, em todas as dimensões e categorias, com um conjunto excepcional, para dignificar a profissão e me inteirar de mais uma verdade factual: este é meu átimo melhor, nesga da eternidade inutilmente fatiada pelo homem. •

registrado em: ,