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Número 762,

Política

Análise / Mauricio Dias

Serra “fritará” Aécio?

por Mauricio Dias publicado 17/08/2013 10h19
Alguém gostaria de convocar o fantasma de Cristiano Machado
Antônio Cruz/ABr
Aécio

Entre Serra e Aécio, a velha pendenga

A política mineira é marcada por vários traumas. Um deles deu origem à expressão “cristianização”, derivada do nome de Cristiano Machado (1893-1953), que se lançou, em 1950, candidato à Presidência pelo PSD. Foi “cristianizado” porque o partido apoiou Getúlio Vargas, do PTB. Nos dias de hoje “cristianizar” é “fritar”.

Em duas eleições presidenciais (2006 e 2010), o mineiro Aécio Neves, neto de Tancredo, foi “fritado” por candidaturas paulistas (José Serra e Geraldo Alckmin), estado que controla o PSDB.

Mais jovem naquelas ocasiões, optou por esperar sua oportunidade. Finalmente parecia ter conseguido fixar o nome dele dentro do partido. Engano. Sofre todo o tempo sabotagem de José Serra e dos “serristas”.

Aécio previa isso. Assim, continuou cauteloso, mesmo tendo sido elevado à condição de presidente do partido. Ele sente que não pisa em terra firme. Por isso, nunca se declarou abertamente “o candidato a presidente” pelo PSDB.

“Se tiver mais de um candidato, as prévias se justificam. O PSDB tem um único candidato e está unido em torno dele. Não há possibilidade de esse clima de divisão contaminar a candidatura de Aécio”, insiste Sérgio Guerra, presidente do Instituto Teotônio Vilela, notório adversário de Serra.

Ah, se fosse assim! Serrista de carteirinha, o senador Álvaro Dias (PR) lamenta não terem havido os debates e as prévias. Aí, sim, “o nome de Aécio teria se fortalecido”.

Esse pessoal não é fácil. Não é de se excluir que Serra possa ganhar uma prévia no partido.  Sem dúvida ainda é o preferido de muitos eleitores e filiados, eternamente certos do seu “melhor preparo”.

Serra nunca se fingiu de morto. Ele circulava pelas sombras e conversava pelas noites atento a tudo o que acontecia no mundo político. Continuou a acalentar o sonho “da vida inteira”, como já disse, de chegar ao cume do poder mesmo após duas derrotas. Em 2002, perdeu para Lula e, em 2010, para Dilma.

A oportunidade para Serra ressurgir “dos mortos”, veio com os números das intenções de voto na mais recente pesquisa Datafolha. Como parecia aos institutos que ele estivesse fora da corrida, Serra pediu pessoalmente a inclusão do seu nome às intenções de voto dos eleitores.

Com a queda de 17% para 13% das intenções de voto, a candidatura de Aécio sofreu. Serra alcançou 14%. A rigor, embora com alto índice de rejeição, o nome dele sempre oscilou em torno desse patamar. Essa é uma das provas da preferência do eleitor tucano.
O acerto o levou a uma avaliação forte, tão sutil quanto presunçosa, sobre a diferença entre ele e Aécio na moldura de candidaturas possíveis: “Pode ter uma linha de que precisamos ter gente que saiba fazer acontecer. Claro que eu me identifico não como ator, mas como observador e analista”.

Resta saber como os eleitores de Minas Gerais reagiriam à derrota interna de Aécio e como os de São Paulo se comportariam com o veto à aspiração de Serra.

Certo é que, ao fim e ao cabo, alguém pretende “fritar” alguém.

Querer não é poder...
Sem perder o tom da serenidade, o ministro Luís Roberto Barroso realinha com objetividade o Supremo Tribunal Federal à Constituição. Diz ele:“Penso que o Congresso, diante da condenação de um parlamentar por crime grave, deveria decidir pela perda do mandato dele.

E seria natural que a sociedade brasileira cobrasse isso.

Mas não acho que o STF possa ou deva impor a sua vontade em uma matéria na qual existe norma expressa na Constituição dizendo que a decisão é do Congresso.

Viver em um Estado de Direito significa fazer tudo o que eu posso, e não tudo o que eu quero”.

Barroso botou o pé no freio da judicialização da política.

... Ou é?
Cercado por um batalhão de repórteres na quinta-feira 15, o ministro Gilmar Mendes antes de entrar para a segunda sessão de votação dos embargos declaratórios, voltou a agitar a bandeira do conflito com o Legislativo, em torno dos deputados punidos no caso do “mensalão”, mas que não perderam o mandato imediatamente. Diz ele: “O Congresso está discutindo esse tema porque a solução que se está tomando não é certamente a melhor”.

Ele não vai gostar de ouvir a voz do ministro Barroso.

Centavos para Jango I
O Superior Tribunal de Justiça restabeleceu a indenização decorrente da anistia política ao ex-presidente João Goulart, morto no exílio (1976).

A decisão devolve à ex-primeira-dama Maria Thereza uma indenização decorrente da anistia política que recebia desde 2009.

“O direito, desfez-se o malfeito”, diz com certa ironia Cezar Britto, advogado da viúva de Goulart.

Centavos para Jango II
Maria Thereza recebia duas parcelas de natureza jurídica e fundamentos distintos. A primeira delas da pensão especial, como viúva de ex-presidente, no valor de R$ 26.723,13. E a segunda, de R$ 6.521,62, da anistia política concedida a Jango.

As duas parcelas foram pagas durante mais de três anos.

De repente, porém, sem qualquer comunicação, passou-se a abater ilegalmente o valor da anistia política em razão do teto do serviço público.

Houve momentos em que, após os descontos, o valor da indenização efetivamente paga à viúva correspondia a R$ 0,01. Exatamente: 1 centavo.

Memória de Ayres Britto
Não se sabe como Carlos Ayres Britto, ministro aposentado do STF, definiria hoje a deposição do presidente João Goulart, em 1964.  
Em 1977, no entanto, exaltou o fato como “Revolução Democrática de 31 de março de 1964” (Recorte), em texto sobre “O problema da vigência dos atos complementares posteriores à edição do AI-5”.

A reverência à ditadura é de fazer corar até mesmo um frade de pedra.

Principalmente para quem, na presidência do STF, assumia com orgulho provinciano o papel de guardião da Constituição.

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