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Número 762,

Saúde

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Câncer de próstata, sem pânico

por Riad Younes publicado 22/08/2013 09h01
Além dos cuidados normais (PSA do sangue e exame de toque), há a esperança de uma droga nova. Ainda assim, a prevenção suscita tantas dúvidas quanto certezas

Já discutimos, nesta coluna, as dúvidas cada vez mais comuns sobre o melhor modo de diagnóstico precoce de câncer de próstata, e até sobre a validade de se rastrearem pessoas idosas para tentar encontrar tumores minúsculos na próstata.

O uso indiscriminado e disseminado de dosagem de PSA, exame de sangue indicado para detectar suspeitas de câncer de próstata em homens sem sintomas, foi posto em cheque com grandes estudos mundiais. Atualmente, a indicação desse exame se tornou mais seletiva, evitando, assim, ansiedade e complicações ligadas a procedimentos, cirúrgicos ou não, para o manejo de nódulos na próstata.

A Sociedade Americana de Câncer reviu recentemente suas recomendações para a detecção precoce de tumores malignos na próstata. A maioria dos urologistas adota essas diretrizes atualizadas. Por outro lado, um estudo publicado recentemente na revista New England Journal of Medicine avaliou o impacto de um medicamento na prevenção do câncer de próstata: a finasterida, substância utilizada frequentemente no controle da hiperplasia de próstata, aumento progressivo e benigno da glândula, muito comum em homens acima dos 60 anos. Esse medicamento é também utilizado para pre venir alguns tipos de queda de cabelo e de alopecia.

Os pesquisadores, liderados pelo doutor Ian Thompson, da Universidade do Texas, em San Antonio (EUA), acompanharam 18.880 homens separados em dois grupos. A metade recebeu finasterida e o outro grupo somente placebo. Em acompanhamento seguido de 14 a 17 anos, a mortalidade por câncer nos dois grupos foi semelhante. Mas a incidência de câncer de próstata foi reduzida em 30% nos pacientes que receberam finasterida. Os cientistas também observaram que no grupo do medicamento houve diagnóstico um pouco mais frequente de tumores malignos de risco mais elevado, ou seja, mais agressivos.

Para esclarecer os detalhes e as implicações desse estudo na vida de milhões de homens, conversamos com o doutor Álvaro Sarkis, urologista e professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

CartaCapital: Como está atualmente a detecção precoce de câncer de próstata?
Álvaro Sarkis: Ainda controversa. A detecção precoce do câncer de próstata na população (screening) é atualmente baseada num simples teste de sangue, o PSA, e no exame de toque retal. Ela reduz a mortalidade por essa doença, mas pode levar a procedimentos e tratamentos desnecessários.

CC: O que esse último estudo mostrou?
AS: Na publicação atual, alguns números ficaram mais evidentes. Foi observada uma redução de 30% de câncer de próstata para quem recebeu a finasterida, sendo 47% de redução nos pacientes portadores de tumores de baixo grau, pouco agressivos. Houve, porém, aumento de perto de 17% na incidência de câncer de próstata de alto grau, mais agressivo e letal.

CC: Isso implicou maior número de óbitos nesse grupo?
AS: Não. O longo seguimento – 18 anos – desse estudo não revelou aumento de mortalidade no grupo tratado, comparado com o grupo que tomou placebo.

CC: Como se explica essa observação?
AS: Essa análise revela que, embora não haja aumento da sobrevida dos pacientes que receberam a finasterida, a redução significativa do número de cânceres detectados pode trazer benefícios na redução de diagnósticos desnecessários e subsequente morbidade do tratamento fútil.

CC: Deveriam todos os homens de certa idade tomar finasterida na tentativa de prevenção de câncer de próstata?
AS: Não. O uso de finasterida deve ser individualizado. Diante de diversas controvérsias no diagnóstico precoce do câncer de próstata, esses resultados podem ajudar na decisão conjunta entre o médico e o paciente sobre a melhor forma de diagnosticar precocemente somente os tumores de próstata de alto risco.

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