Você está aqui: Página Inicial / Revista / Black Blocs / Com quem estou falando?
Número 760, Agosto 2013

Sociedade

Refô

Com quem estou falando?

por Marcio Alemão publicado 09/08/2013 09h05, última modificação 09/08/2013 09h45
Em alguns endereços nobres, não ser frequentador assíduo, daqueles que o maître chama pelo nome, é entrar numa fria. Por Marcio Alemão

Todos sabem que São Paulo é a meca da alta gastronomia e do serviço impecável. Por exemplo, na terça-feira passada, um desses siberianos dias, fui ao Rodeio do Shopping Iguatemi.

É curiosa a primeira sensação. Saibam que não sou um frequentador assíduo do local. Não conheço o maître e muito menos o seu nome. Não estendo a mão para ele nem ele para mim. E ele, claro, tampouco sabe meu nome.

Por que tudo isso? Porque vocês não acreditam a diferença que faz entrar e ser recebido com um sorriso seguido da pronúncia de seu nome com o devido título de doutor antes dele.

Eu vou dizer que o paulistano adora isso, mas talvez possa generalizar para o brasileiro. O cidadão que venceu, que se deu bem, que conseguiu fazer fortuna e fazer com que os maîtres das melhores casas saibam seu nome e conheçam suas manias: “Você me prepara aquela caipirinha de pinga com vodca e limão siciliano da Pérsia?” Pois eu fracassei na maioria dos itens apresentados.

Mas me deu uma vontade louca de levantar, ainda no bar, no andar térreo e mandar todo mundo voltar para a escola, para o Senac ou lugares ainda menos simpáticos.

Disse que iria esperar uma pessoa. Sentei-me. Um corredor de vento assustador. Mudei-me. E primeira lição: melhor o senhor se sentar mais à esquerda. Essa corrente de vento gelado desanima até esquimó de comer sashimi de foca.

Nada. Não houve sequer um sorriso na entrada e nenhuma sugestão razoável. Enquanto isso, doutores eram saudados com calorosos apertos de mão.

Pedi uma cerveja não artesanal,­ pois não gosto delas. Veio, mas veio sem nada mais. Esperei. Duas mesas estavam ocupadas. Em ambas aquele croquete ruim de sempre e pedacinhos de carne com mostarda igualmente ruins.

Não queria isso, mas fiquei a me perguntar se tudo era uma corrente em série: se o maître não me conhece, posso me sentar no frio. Se posso me sentar no frio e posso pedir uma cerveja não artesanal eu posso muito bem não ser servido de mais nada, a não ser que eu peça. Sim, você precisa pedir, seu desconhecido! Fim do espaço.


registrado em: