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Número 760, Agosto 2013

Cultura

Literatura

Célebres fanáticos

por Francisco Quinteiro Pires — publicado 08/01/2014 06h04
Jornalista investiga as acusações de mortes, escravidão e tráfico humano contra a Cientologia nos Estados Unidos
scientologynew.com
Cientologia

A cruz em vão. A reinauguração da sede em Los Angeles, em 2010

*De Nova York

Desde janeiro passado, quando publicou nos Estados Unidos um livro sobre as práticas absurdas da Cientologia, Lawrence Wright espera um revide contundente. Ações judiciais são o principal recurso dos cientologistas contra os seus críticos. O propósito é, segundo Wright, “atormentar”, “desestimular”, e não ganhar uma causa. “Até agora recebi apenas ameaças de processo”, diz. “A igreja conseguiu assustar as minhas editoras na Grã-Bretanha e na Austrália, mas nutro a esperança de que a obra seja lançada nesses países.”

A Prisão da Fé – Cientologia, celebridades e Hollywood (Companhia das Letras, 600 págs., R$ 54) mostra como a igreja exige dos seus integrantes uma reorientação radical de vida. De acordo com Wright, não há uma conversão. O mais comum é a aceitação gradual de proposições extravagantes, graças à promessa de poder e enriquecimento. Essa religião oferece aos fiéis o aumento da inteligência e a conquista da imortalidade. “A Cientologia recruta as celebridades e se esforça para fazê-las se sentirem como reis. Por muito tempo houve a lenda de que ela tinha uma rede secreta de contatos que ajudava aspirantes a artistas a se transformarem em grandes estrelas. A afiliação dos atores John Travolta e Tom Cruise, assim como de outros nomes populares, deu credibilidade a essa bravata.” Desde a sua fundação há quase 60 anos em Los Angeles, na Califórnia, a igreja atrelou o seu prestígio aos astros de Hollywood. Atualmente, ela acumula cerca de 1 bilhão de dólares em ativos líquidos e diz ter mais de 8 milhões de seguidores pelo mundo (as sedes brasileiras se localizam em São Paulo e no Rio de Janeiro). Segundo a Statistical Abstract of the United States, somente 25 mil americanos se identificam como cientologistas, o equivalente à metade da população definida como rastafári.

Wright pôde publicar o livro nos EUA sem sofrer assédio legal por estar amparado na Primeira Emenda da Constituição, protetora da liberdade de expressão e do livre exercício religioso. Os cientologistas a invocam para se blindar contra condenações por práticas abusivas, contrárias às leis do trabalho e tráfico humano. A Cientologia obteve status de religião após seus integrantes abrirem mais de 2 mil processos contra o Internal Revenue Service (IRS), a receita federal americana. As ações judiciais eram uma reação ao pedido de pagamento de cerca de 1 bilhão de dólares de impostos devidos pela igreja. Encurralado, o IRS baixou o montante para 12,5 milhões de dólares. Reconhecida como organização religiosa, a Cientologia tem isenção fiscal ao receber doações e prestar certos serviços.

“A Primeira Emenda torna difícil o trabalho das autoridades quando o assunto é religião”, diz Wright. “O FBI abortou a sua investigação sobre a igreja depois de um tribunal julgar que certas práticas questionáveis nos altos escalões do clero, como confinamento involuntário e abuso emocional e físico, poderiam ser consideradas atividades religiosas.” O jornalista refere-se  à operação de busca e apreensão feita em 1977 pelo FBI em imóveis da igreja onde seus integrantes eram encarcerados ilegalmente. Nenhuma das pessoas encontradas no escuro, com trapos sujos atados às mãos, pediu socorro à polícia federal americana. Esse procedimento chocante seria necessário para disciplinar os cientologistas heterodoxos.

Wright compartilha o espanto de ex-seguidores com a impunidade da igreja garantida pela lei. Em um livro de memórias publicado neste ano, Jenna Miscavige Hill, sobrinha de David Miscavige, o líder da Cientologia desde 1986, relata a sua experiência sob as regras alienantes da igreja, à qual se filiou criança. Jenna conta ter sido vítima de confinamento e de trabalhos forçados, parte do contrato de 1 bilhão de anos de serviços que teve de assinar para ser funcionária. “A igreja é uma organização perigosa, cujas crenças permitem que ela viole direitos básicos e cometa crimes contra a humanidade. É um mistério como pode agir impunemente na nossa sociedade atual”, escreve em Beyond Belief: My Secret Life Inside Scientology and My Harrowing Escape.

Alguns dos mais de 250
entrevistados por Wright para o livro, cuja origem foi uma reportagem na The New Yorker em 2011, relataram ser alvo de agressões pelo tio de Jenna. Apesar de o amigo Tom Cruise descrevê-lo como um dos homens mais “competentes”, “tolerantes” e “inteligentes” do mundo, Miscavige teria um temperamento explosivo e bateria nos seus subordinados. Segundo ex-funcionários da igreja, o líder da instituição foi o supervisor do tratamento da atriz Lisa McPherson, morta após um colapso mental em 1995. Alimentada com um conta-gotas e presa numa solitária, McPherson sofreu embolia pulmonar e tornou-se um dos nove integrantes da igreja a falecer misteriosamente na sede de Clearwater, Flórida. Os cientologistas fizeram um acordo com a família da atriz após o legista do caso determinar que a morte ocorreu por acidente.

A fim de publicar A Prisão da Fé na Inglaterra, Wright teria de alterar o texto para se proteger de processos por calúnia. A estratégia foi adotada pelo jornalista John Sweeney em The Church of Fear, Inside The Weird World of Scientology, lançado à época de A Prisão da Fé. O livro de Sweeney parece redigido por um advogado, segundo a revista The Economist, “um sinal de que o sistema legal inglês limita os escritos sobre pessoas controversas e litigantes”. Vencedor do Pulitzer Prize por O Vulto da Torres, A Al-Qaeda e o Caminho até o 11/9 (2006), Wright diz que a denúncia não era sua prioridade. Ele passou boa parte da carreira “examinando os efeitos de crenças religiosas sobre a vida das pessoas”.

A Cientologia tornou-se atraente por ser “estigmatizada” e ter “um papel descomunal no elenco das novas religiões que surgiram no século XX e adentraram o XXI”. O jornalista usou como fio condutor o rompimento de Paul Haggis com a Cientologia em 2009. Diretor e roteirista de Crash, No Limite, premiado com o Oscar de melhor filme em 2006, Haggis entrou na Igreja aos 21 anos e ali permaneceu por três décadas e meia. Com o auxílio dos cientologistas, conseguiu os primeiros trabalhos. Tempos depois, foi admitido em Hollywood, trajetória parecida com aquelas de Travolta e Cruise. Pai de duas lésbicas, Haggis abandonou a religião porque ela apoiou uma lei contrária ao casamento gay na Califórnia.

Haggis prevê perseguição nos próximos anos. A intolerância com o dissenso marca a Cientologia, nascida com o seu fundador, L. Ron Hubbard (1911-1986), pseudocientista e escritor. Exaltado falsamente como herói de guerra, Hubbard era sexomaníaco e espancava as esposas. Em obras como Dianética, O Poder da Mente sobre o Corpo (1950), desenvolveu teorias sobre a imortalidade da alma ao reciclar, sobretudo, conceitos de Sigmund Freud. Embora a Cientologia não exija  crença em um deus (a cruz, um de seus símbolos, não tem ligação com o cristianismo), Hubbard se apresentou como déspota de um pequeno reino.

Ele apregoou que um indivíduo se libertaria das leis da matéria, do espaço e do tempo se participasse das audições, aconselhamentos pagos conduzidos por alguns funcionários da igreja. Se o pagante não alcança o sucesso espiritual, o problema é o contato com “as pessoas supressivas”, os críticos da Cientologia. “O indivíduo tem de cortar relações com os desafetos da igreja, mesmo que seja sua mãe, esposa ou filha”, diz Wright. “É preciso escolher entre o amor das pessoas mais próximas ou uma promessa de salvação.” Wright duvida que a Justiça mude a atuação questionável da igreja. “Apenas a informação pública pode fazer isso.”

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