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Número 758, Julho 2013

Internacional

Vaticano

Um papa revolucionário

por Gianni Carta publicado 22/07/2013 11h53, última modificação 22/07/2013 18h24
Em entrevista exclusiva na capital italiana, o professor de História do Cristianismo, Gaetano Lettieri, afirma que o papa Francisco revoluciona ao trazer de volta o tema da pobreza à tradição cristã
AFP
Gaetano Lettieri

Gaetano Lettieri é professor de História do Cristianismo e das Igrejas da Universidade La Sapienza de Roma

De Roma

Para Gaetano Lettieri, professor de História do Cristianismo e das Igrejas da Universidade La Sapienza de Roma, o papa Francisco revoluciona a Igreja porque traz “de volta à tradição cristã um tema fundamental do Evangelho: o da pobreza”. Ele não pode, diz Lettieri, ser favorável ao aborto e a outros “pecados”, mas por mirar na misericórdia o papa os perdoa.

CartaCapital: Os jesuítas foram fundamentais no processo de catequização de índios. O fato de o papa Francisco ser jesuíta facilita sua ida ao Brasil?

Gaetano Lettieri: Claro. Antes de tudo, é importantíssimo o fato de o primeiro papa jesuíta ser sul-americano. Por que a identidade jesuíta fascina? Porque aposta no testemunho cristão, e assim busca os limites do ponto de vista cultural, social e também político. Os jesuítas caracterizam-se por esse movimento missionário. A primeira afirmação do papa do balcão da Basílica de São Pedro logo após sua eleição: “Foram buscar um papa do fim do mundo”. Ele falava de uma extrema distância e isso tem até uma dimensão escatológica. “Do fim do mundo” significa também um papa a testemunhar um discurso totalmente diverso em relação àquele feito no mundo religioso. A mensagem de Francisco foi esta: para compreender Cristo é preciso adentrar a pobreza, quiçá no fim do mundo, do ponto de vista social e econômico. Aos pobres ele se refere como os “últimos”. A ordem dos jesuítas é refinadíssima. Refiro-me aos jesuítas a frequentarem várias cortes europeias. Também criaram resistências e ódios, devido a essa sua estratégia de ocupação dos centros nevrálgicos do poder na história do Ocidente. A meta deles sempre foi investigar cada âmbito da realidade, das camadas sociais mais altas às mais baixas.

CC: Por que o atual papa é tão admirado?

GL: Ele parece ter dado um choque de energia da Igreja. Isso porque foi explícito ao trazer de volta à tradição cristã um tema fundamental do Evangelho: o da pobreza. O Evangelho nasce exatamente desse ponto. Existe uma proximidade com os pobres, com os sofredores. Francisco traz à tona um debate sufocado pela economia, pela tecnologia e também pela cultura. Ao afirmar que existe “outra coisa” mais importante, o papa tornou-se radical. Ele tem essa força de dizer “não” àquilo a fazer parte do poder dominante. E faz esse discurso com simplicidade e com base na lógica do Evangelho. O próprio nome por ele escolhido, Francisco, diz muito. Existe um contraste muito interessante entre o atual papa e Bento XVI. O pontífice anterior era mais intelectual e o atual é mais simples, pobre. Francisco usa a simplificação como um desafio cultural para transmitir uma linguagem mais radical.

CC: Na sua encíclica, Lumen Fidei (Luz da Fé), publicada no fim de julho, o papa se opõe ao matrimônio gay. Não fala de aborto, de anticoncepcionais e dos direitos da mulher, entre outros. Seria esse papa um revolucionário porque é muito simples e busca reformas, mas ao mesmo tempo trata-se de um conservador porque escreveu a quatro mãos uma encíclica com um "papa conservador, como Bento XVI"?

GL: A Igreja Católica, do ponto de vista da doutrina, não pode não ser tradicional. Isto é, não pode revolucionar os pontos firmes de sua doutrina teológica. Temas como aborto e o divórcio têm elos com o Evangelho, que é uma tradição cristã milenar. Sim, o papa Francisco é um radical, mas não do ponto de vista da transformação radical das doutrinas da Igreja sobre a vida, a ética e o matrimônio. Mas doutrinas tradicionais católicas são intocáveis, ao mesmo tempo se sobrepõe uma lógica de caridade. Este me parece ser o registro duplo: a lógica da caridade é superior à doutrina da lei eclesiástica, que não pode ser revolucionada.

CC: É por isso que Francisco não aborda esses temas nos seus discursos como o faziam seus predecessores?

GL: Não cabe julgar quem milita na Igreja com base nos códigos legais de comportamento. Francisco mira, sobretudo, na caridade e na graça. Caridade quer dizer também graça, que significa experiência de doação. O papa não contradiz certos princípios. De algum modo interpretamos esses princípios como indicações morais que devemos respeitar, mas ao mesmo tempo não os seguimos necessariamente à risca. É claro que o papa não pode ser favorável ao aborto. Mas, se o que conta são a caridade e a benevolência humana, ou um convite à misericórdia, até a traição é superada por uma lógica do perdão.

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