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Número 758, Julho 2013

Política

Vaticano

O périplo de Francisco

por Wálter Maierovitch publicado 22/07/2013 08h46
Bergoglio tenta cumprir a missão na qual Ratzinger, seu antecessor, fracassou: recuperar fiéis
AFP
bergoglio

Bergoglio e os fieis: uma tentativa de reaproximação

No curso do conclave que culminou na eleição de Jorge Mario Bergoglio houve uma queda de braço entre dois grupos de cardeais. Perdeu a ala conservadora liderada por Tarcisio Bertone, secretário de Estado, por abafar escândalos e pela poluição ambiental interna em face de futricas e cizânias. Por estar queimado para realizar o seu sonho de se tornar papa, Bertone lançou a candidatura do brasileiro Odilo Scherer, arcebispo metropolitano paulista e então integrante do seleto conselho fiscalizador do Instituto para as Obras de Religião (IOR), conhecido como Banco do Vaticano. Nas reuniões preliminares ao conclave, coube a Scherer a defesa ferrenha do IOR, como se fosse uma graça dos céus e apesar de considerado, no âmbito do sistema monetário internacional laico, uma lavanderia e porto seguro para ocultar valores de origem duvidosa de correntistas não identificados.

O grupo vencedor, por outro lado, objetivava promover uma nova imagem para a Igreja. Ou seja, para o Vaticano (território soberano) e a Santa Sé (pessoa jurídica de direito internacional e de jurisdição papal). Como meta, os reformistas pregaram o término do fausto, a reforma da Cúria, órgão coadjuvante da Santa Sé em funções político-administrativas e doutrinais, o fim da corrupção e da impunidade nos casos de abusos sexuais de crianças, e a adequação do Banco do Vaticano às regras antirreciclagem da União Europeia.

O jesuíta Bergoglio tinha o perfil desejado. De pronto, apresentou-se como bispo de Roma e colocou em segundo plano o título de papa. Numa organização que tenta conciliar o céu (espiritualidade) e a terra (poder político) e é balizada por um Evangelho que proíbe o serviço a Deus e a Mamon (riqueza, dinheiro), Francisco optou pelo caminho original. Bergoglio, que chegará ao Brasil para uma jornada com jovens não abusados e ainda fiéis ao catolicismo, já praticou atos para posicionar a Igreja na vereda aberta, no século IV, pelo imperador Teodósio e a considerar o cristianismo a religião do Império e do Estado. Consoante a tradição de “abandonar o ouro e a púrpura para reencontrar a santa humildade da sua origem”.

Como se percebe, não à toa Francisco recusou as peças de ouro e deixou o trono pomposo e os suntuosos aposentos papais. Até agora procura honrar os votos recebidos nas urnas da Capela Sistina: deu nova face à gestão do IOR, defenestrou os dirigentes suspeitos e nomeou especialistas leigos para apresentar diagnóstico e propostas de mudanças. Na Cúria, o cardeal Bertone continua decorativamente no cargo e Ratzinger contentou-se com o inédito título de papa emérito, o fato de morar sem pagar aluguel nas imediações dos jardins vaticanos e a possibilidade de evitar riscos judiciários internacionais.

Antes de partir para o Brasil, Bergoglio redigiu, no uso do seu poder monárquico absoluto, um motu proprio, regras de sua própria lavra, realizou uma vistoria na garagem de veículos papais e observou o pátio do estacionamento reservado aos prelados em serviço e aos detentores de “carteirinha” de acesso ao duty free do Vaticano: vinhos, bebidas, remédios e combustível sem impostos. Bergoglio optou por uma linha popular do Ford Focus e tirou de circulação os doados automóveis Mercedes-Benz e BMW. Aos clérigos com carros luxuosos avisou: “Se gostam do carro de luxo, pensem nas crianças que todos os dias morrem de fome”. A propósito do hábito de uso de carros caros e de luxo pela elite clerical, existe uma antiga piada romana que decorre das placas com o designativo SCV (Stato Città del Vaticano). Toda vez que eram vistos os carrões, os romanos diziam que SCV significava: Se Cristo Visse esse...

Por motu proprio Francisco determinou que a partir de 1º de setembro vigoram mudanças no Código Penal do Vaticano, criado em 1929. Ele estabeleceu um tipo penal para a tortura e penas pesadas aos crimes sexuais contra menores de idade. Colocou fim à prisão perpétua e agora o máximo serão 30 anos de reclusão. A grande novidade consistiu na possibilidade de extradição de clérigos. O Vaticano e a Santa Sé ficam abertos à cooperação judiciária internacional, ou seja, cumprirão cartas rogatórias do Judiciário de outras nações, coisa que faziam raramente e muitas vezes só depois de ocorrida a prescrição.

O processo criminal vaticano será orientado pelo princípio da presunção de inocência, com ampla defesa, e serão fornecidas informações, incluídas aquelas do Banco do Vaticano. Bergoglio tenta, com as mudanças e a sua postura franciscana, fazer cair no esquecimento os escândalos dos clérigos pedófilos e recuperar fiéis, missão que se tornou impossível ao seu antecessor, Ratzinger.