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Número 758, Julho 2013

Economia

Economia

Duopólio de plástico

por Arnaldo Comin — publicado 07/01/2014 05h39
A abertura do setor completa três anos, mas a dupla Cielo e Redecard ainda concentra mais de 90% do mercado
Jonas Tucci
Fernando Antunes

Sem taxas. Fernando Antunes economizou 900 rais ao comprar um sistema de som com o cartão de débito

No primeiro fim de semana de julho, o microempresário da construção civil Fernando Sérgio Antunes realizou o sonho de trocar de aparelho de som. Na loja de uma grande rede de varejo, na zona leste paulistana, soube que deixar o cartão de crédito na carteira era um ótimo negócio. Caso o usasse, a mercadoria desejada sairia por 2,6 mil reais. Após regatear um tanto, levou o produto por 1,7 mil, mas o pulo do gato foi mesmo pagar à vista, usando o cartão de débito. “Pago quase tudo com cartão, mas sempre que posso uso o de débito para conseguir um preço melhor”, diz Antunes. No crédito mesmo, só quando não consegue qualquer vantagem, aí ganha mais prazo para pagar e, segunda regra de sua cartilha financeira, sem jamais parcelar a fatura. “Com os juros que eles cobram não há nenhuma condição.”

Antunes faz parte da massa de brasileiros acostumada à facilidade proporcionada pelos sistemas eletrônicos de pagamento. A popularização do “plástico” no País: hoje 75% da população das grandes cidades usa regularmente os cartões, que respondem por 26% do gasto das famílias.

A maioria dos usuários não se dá conta, porém, da fabulosa fábrica de dinheiro, entre taxas e juros, que trafega do chip aos cofres dos bancos. Após a cancela do consumo e do crédito ser aberta, o mercado de cartões supera a média de 20% de crescimento ao ano. Em 2013 chegará a um faturamento de 847 bilhões de reais e, se forem confirmadas as expectativas mais otimistas, baterá em 1 trilhão no fim de 2014.

Em cinco anos, o peso do cartão no faturamento varejista subiu de 52% para 58%, com 37% de participação dos cartões de crédito. Embora seja proibida pela Lei do Consumidor, a prática de diferenciação de preços entre crédito e débito, como na experiência do microempresário, está disseminada. O principal motivo para a pechincha no balcão são as taxas de desconto das redes credenciadoras, como Cielo e Redecard, na qual está embutida a remuneração dos bancos emissores e das bandeiras dos cartões, quase sempre Visa ou MasterCard. Na média, o desconto em cada transação no débito gira em torno de 1,5%, enquanto no crédito o custo sobe a 2,8%.

Essa média tem forte influência das redes varejistas. Para o pequeno comerciante, as taxas no crédito chegam facilmente a 3,8%. No débito, o comerciante escapa do parcelamento, que traz embutido um pesado custo financeiro na antecipação de pagamentos por parte dos bancos. Ao evitar o crédito, a loja recebe no ato, com taxas menores, por isso vale a pena negociar desconto com o freguês.

Diante do cenário de massificação, o Banco Central decidiu intervir na prática de cabresto que imperava no setor. Em julho de 2010, o BC pôs fim à “exclusividade de adquirência”. A então Visanet, atual Cielo, não teria mais o monopólio de credenciamento e de operação da Visa, e a Redecard não poderia fazer o mesmo com a MasterCard. Juntas, as duas bandeiras dominam mais de 90% do mercado.

O objetivo era forçar, por meio da competição, a queda de taxas cobradas do varejo, repassadas ao consumidor e, por tabela, tentar reduzir os altíssimos juros cobrados nas tarifas para quem opta por parcelar a fatura. Segundo cálculo da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, a prática persiste, porém. Os juros básicos da economia subiram para 8,5% ao ano, mas a taxa média do cartão de crédito, a mais cara do mercado, é de 9,41% mensais. Isso dá 22,8 vezes a Selic.

Após três anos, o mercado passou por uma enorme reorganização de fachada. E manteve tudo mais ou menos como antes. “Foi pura ilusão”, lamenta o empresário Udlei Nattis, sócio da Nixus, prestadora de serviços de tecnologia para 70 lojas de comércio eletrônico. “Tínhamos uma grande expectativa, mas na prática a única coisa que mudou foi poder passar o cartão Visa no sistema da Redecard.”

A sensação de imobilismo
provoca a fúria dos comerciantes. “O custo deveria ser zero, pois entendemos que, na relação entre a operadora e o dono do cartão, há um terceiro indivíduo que paga a diferença embutida no preço, os consumidores que compram em dinheiro, entre eles 35 milhões de cidadãos do Bolsa Família”, diz João Carlos Devens, coordenador-geral do comitê de meios de pagamento da Associação Brasileira de Supermercados. Ele critica os valores cobrados pelas empresas de cartões e defende que o varejo possa oferecer descontos no débito.

Segundo o vice-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito, Raul Moreira, o mercado demanda alto investimento para ganhar escala e, portanto, o processo de abertura será gradativo. “A pressão do consumidor, seja o cliente final, seja o lojista, sempre existirá. Se o produto não fosse tão relevante, o mercado não cresceria desse jeito, praticamente eliminamos o uso de cheque no Brasil e o objetivo agora é diminuir o uso do papel-moeda.”

Mesmo com o fim da exclusividade, poucos players atreveram-se a entrar no mercado. O Santander é o único estreante de peso a buscar espaço, a partir de uma parceria, em 2010, com a credenciadora GetNet, com quem assinou na semana passada um memorando para comprar o controle da empresa. Apesar dos planos de abocanhar 15% do negócio no País, o banco espanhol possui uma fatia inferior a 5%, com amplo domínio de mais de 90% da Cielo e Redecard. O setor conta ainda com alguns credenciadores menores, entre eles Banrisul, Bankpar e Hipercard, com participações residuais.

A entrada de concorrentes pouco alterou as taxas de desconto. Segundo o consultor Bruno Clemente Furlan, da Dextron Management Consulting, logo após a abertura houve uma queda de 7% a 8%, e só. O aluguel das famosas maquininhas de cartão (POS, em inglês) chegou a cair de preço, mas voltou aos antigos patamares.

Os credenciadores justificam. Os aparelhos sem fio e os leitores de chip teriam encarecido os equipamentos. Mas a possibilidade de o lojista contar com apenas um credenciador de cartões provocou uma maior competição e uma menor rentabilidade para as empresas. “A melhor medida é a margem de lucro da Cielo e Redecard, que era de 60% ou 65% e caiu para perto de 50%, ainda muito boa”, diz Furlan.

Para evitar a sangria de receita, grandes bancos e credenciadoras correram para marcar posição. A Visanet converteu-se na Cielo, a única empresa de capital aberto no setor, controlada pelo Bradesco e pelo Banco do Brasil. Diante de um provável enxugamento das taxas de remuneração com as novas bandeiras, em março de 2011, a companhia criou sua marca bandeira, a Elo, que tem a Caixa Econômica Federal como parceira.

Apesar do espaço apertado, há grupos estrangeiros dispostos a entrar no jogo e o chamariz é típico do sistema financeiro nacional, como explica Pedro Caixeta, diretor da Global Payments, uma das maiores credenciadoras estrangeiras dos EUA. “As margens aqui são altíssimas”, explica o executivo. No fim de 2012, a Global selou uma joint venture com o Banco de Brasília (BRB) e lançou o serviço para o varejo brasiliense no dia 1º de julho, após um mês de testes com mil estabelecimentos.

Caixeta há um ano buscava oportunidades no mercado nacional. “A associação das credenciadoras com os grandes bancos manteve-se, por isso o espaço é pequeno. Nosso objetivo é consolidar a operação com o BRB, cuja base de clientes é muito sólida em Brasília, e depois partir para novas parcerias.”

Outra gigante independente norte-americana, a Elavon mostra ainda mais apetite. “Queremos 10% do mercado em cinco anos”, diz Antônio Castilho, experiente profissional do setor, recrutado em 2011 para estruturar o negócio da companhia no País. A Elavon Brasil conta com dois sócios de peso, o Citibank e o U.S. Bank. A nova companhia entrou em agosto de 2012 e tem agora 25 mil clientes.

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